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13 junho 2022

Dor suave

junho 13, 2022 3
Dor suave
Arcos de Valdevez, agosto 2020

Fiz cinquenta e dois anos no dia 1de junho. Começou bem o dia- tirei um vestido do armário, iluminei a pele, li algumas mensagens que tinham chegado e saí de casa.
Mentiria era se dissesse que foi um dia muito feliz. Esforcei-me por valorizar as palavras que chegaram, os abraços que recebi, os parabéns cantados pelos meus alunos, mas acabei o dia com uma sensação de aperto.

Gosto muito de fazer anos, mas o facto do Luís não ter conseguido viajar, do Gonçalo estar a tantos quilómetros, de saber de duas grandes amigas com problemas de saúde, não me deixou celebrar.

Tentei agarrar-me ao tanto de bom que tenho à volta, mas não encontrei a leveza que precisava. Ele há dias assim e, eventualmente, foi coincidência ser o dos meus anos.

Não gosto de me queixar, mas por vezes faço-o.

Faço-o hoje, aqui neste meu diário, para lembrar a mim e a quem lê que há dias em que nos sentimos nublados por mais que o sol nos queime a pele. 

Não estamos os quatro juntos desde janeiro e parece que agora, que já só faltam dezessete dias para eu ouvir o Gonçalo chamar-me "Senhora, minha mãe" e colocar o hino do Sporting mais alto do que as canções que gosto de ouvir, o tempo passa ainda mais devagar. 

Não me sinto deprimida, apenas com saudades. E sei, contudo, que tudo está bem. Camilo Castelo Branco escreveu que "a saudade pelos vivos é dor suave" e eu sei a sorte que tenho por a minha ser assim.









14 abril 2022

Filo(Sofia) gratuita

abril 14, 2022 4
Filo(Sofia) gratuita


 Miguel em Barcelona, Gonçalo em Cracóvia, Luís em Bruxelas e eu e a Izzie nos Cavalinhos. 

Tem sido uma semana exigente, mas eu asseguro que não me sinto sozinha.

Sim, talvez por saber que é transitório, que logo, logo chega quem me aconchega, e, talvez, por saber que tenho família e amigos de quem me posso socorrer.

Se não fosse a preocupação por não os ter debaixo de olho, diria que me soube extremamente bem.

Gosto da minha companhia e entendemo-nos perfeitamente.

E, afinal, só podemos estar bem com os outros se estivermos de pazes feitas connosco, não é?

11 março 2022

Ir a Vilnius e voltar

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Ir a Vilnius e voltar




Há uma semana, preparava eu a minha mochila rumo a Vilnius, capital da Lituânia.

Um casaco quente, luvas, cachecol,  uma muda de roupa na mochila e muita vontade de abraçar o meu menino-homem. 

Demorei mais horas em viagem do que na cidade, mas valeu tanto a pena. Quando cheguei ao pequeno aeroporto da cidade, tinha quatro braços à minha espera (o Luís voou de Bruxelas até lá) e muita vontade de ver onde o Gonçalo dormia, com quem partilhava casa, um bocadinho das suas rotinas. E assim foi.


Conheci o amigo com quem ele partilha casa, jantei no seu restaurante preferido e, o mais importante, senti que ele estava  feliz, mais aberto, mais falador e com vontade de continuar por lá até quando fosse possível. Tem vinte e um anos o meus rapaz e sei que é natural ele ter esta fome de mundo e a impaciência natural de quem passou os dois últimos anos praticamente confinado em casa, mas eu precisava, para me tranquilizar nestes dias negros, de saber que ele tem a sorte de estar seguro.

Receei ir, mas fiz bem em ir.

Quanto a Vilnius, cidade próxima da Bielorrússia, é impossível passar ao lado da terrível guerra que assola a Ucrânia. Em cada canto há uma bandeira azul e amarela, recolha de donativos e receia-se o amanhã com um silêncio em que me consigo ouvir , mas que não me permite emitir um queixume.

Tenho tanta sorte. Temos tanta sorte.

(Senti quase pudor em tirar fotos, como se nestes tempos não nos fosse permitido ser feliz,  mas no meu Instagram  ainda encontram uns cliques nos Destaques.







28 fevereiro 2022

As mães (e os pais) não têm sempre razão

fevereiro 28, 2022 1
As mães (e os pais)  não têm sempre razão


Nunca fui muito de me queixar e agora, enquanto assisto ao que se passa na Ucrânia e em que ando, como vocês, dormente, ainda o faço menos, quase como se me sentisse envergonhada ao ver tanto sofrimento espelhado nos rostos, ao imaginar o que nem sei imaginar, e não me fosse permitido andar de coração apertado, por aquilo que, perante tanta dor, sei que é pouco.

Mas tenho recebido mensagens, telefonemas a perguntar pelo Gonçalo e tive esta necessidade de vir aqui escrever de modo a tornar, também,  mais leves,  estes pensamentos que teimam em não me largar. Se não vos fizer sentido, podem parar aqui que prometo não me chatear.

Levar o  Gonçalo ao aeroporto para ir para a Lituânia, não foi tarefa fácil. E, esta semana, a vontade que eu e o Luís  tivemos, quando a Lituânia decretou Estado de Emergência, foi pedir-lhe que apanhasse um avião para Lisboa ou Bruxelas e viesse para casa. 
Falámos-lhe no assunto, mas ele não vacilou e quis ficar. Está inscrito na Embaixada, tem contacto com ela (ainda hoje lhe telefonaram), tem ido a manifestações pela paz, não quer abandonar os amigos que já fez e diz-nos que está a viver uma experiência de vida que o enriquece a cada dia.

Aceitamos a decisão- como poderia ser de outra maneira?

É que as mães (e os pais) não têm sempre razão.

Se fosse pela minha mãe, em finais da década de oitenta, eu nunca teria saído de casa para ir estudar para fora.
Se fosse pela minha mãe, eu limitar-me-ia a tratar da casa e a dar as minhas aulas- para quê fazer voluntariado? para quê ter voz na política? para quê assumires cargos que só te dão trabalho?

Se fosse por mim, também, o Miguel nunca iria para a escola de bicicleta, não passaria os dias em treinos e jogos de futsal, não teria amigos que não conheço bem e o máximo, à uma da manhã, estaria em casa.

Se fosse por mim, também, o Gonçalo nunca andaria à noite em Lisboa, não faria viagens longas de carro a conduzir, não arriscaria tanto no que decide fazer.

Tenho, tal como os meus pais tiveram, vontade que os meus filhos se mantenham debaixo das minhas asas, mas quão mal lhes faria eu se assim fosse?  É que ainda bem que  eu não fiz sempre o que os meus pais quiseram. E ainda bem que os meus filhos não farão sempre o que eu quiser. Só assim a minha vida e a deles terá e fará sentido- o sentido que lhes quisermos dar.

Quanto ao que se passa na Ucrânia- ando a fazer o que posso, que é pouco. E sobre isso escreverei amanhã.

10 fevereiro 2022

Voltar a estudar...devagar.

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Voltar a estudar...devagar.


Voltei a ser estudante em outubro e, mesmo mais cansada, ando entusiasmada. Não sei até quando vai durar  (e se vai durar) esta minha vontade de aprender, saber mais e investir na minha formação.
É que há uns largos anos, já andei assim e desisti.

Não é algo que me orgulhe e é a primeira vez que o menciono no blogue, mas aqui vai: há uns anos, desisti a meio da tese de Mestrado em Relações Interculturais e durante anos ninguém me pôde falar no assunto. Deixei de atender os telefonemas  da orientadora, pus no lixo  quase todos os livros e trabalhos relacionados e só voltei à universidade para ir buscar o certificado de pós- graduação vinte anos depois.

O problema não foi desistir. O que hoje acho que não fiz bem foi desaparecer sem dizer nada e quase apagar dois anos da minha vida. 

Falta de maturidade, talvez...Foi o que foi, mas ainda hoje sinto algum desconforto em falar do assunto... Por isso, agora, vou mais devagar, a ver no que isto dá, sem exigir muito de mim, sabendo das minhas fragilidades, aceitando apenas esta vontade  de aprender e saber mais.

Daqui a três anos (ou quatro), se verá.

Foto e texto: Lisboa, 10 de fevereiro de 2022








07 fevereiro 2022

Lituânia no meu mapa!

fevereiro 07, 2022 7
Lituânia no meu mapa!




Já Saramago nos dizia que os filhos são um empréstimo e eu sei disso muito bem. Contudo, independentemente da idade que eles têm, quando a distância física entre nós aumenta, o meu coração não consegue deixar de se encolher.

Há uma semana que o Gonçalo está na Lituânia em Erasmus- é o caminho dele, bem sei, mas aqueles primeiros dias fizeram tremer o pai e a mãe. Todavia, sempre fomos os pais que dissemos "vai" e apoiamos agora como incentivámos os primeiros passos, a ida para a escola, para um acampamento de escuteiros, para um intercâmbio...

Posto a foto do Gonçalo com uns três aninhos, porque foi a imagem que me apareceu muitas vezes nestes dias. Foi numa ida a Lisboa, `à Casa Inacabada do pavilhão do Conhecimento,  (fui ver e ainda existe, cliquem aqui se tiverem interesse) e o Gonçalo quando chegou estava um bocadinho assustado, cauteloso, mas cheio de vontade de ir.  "Vai, Gonçalo!"- dissemos-lhe. E ele foi.

Passaram 18 anos. Ele já não posa para mim e eu já não estou à distância de um abraço. Sei que,  muito provavelmente ele já não me ouve como ouvia,  mas eu sou  aquela que, por mais que o coração aperte, dirá sempre:" Vai, meu amor!". 



10 janeiro 2022

Escolas e mentes abertas!

janeiro 10, 2022 4
Escolas e mentes abertas!


Hoje, a minha escola abriu portas para abrir portas.
Sinto um friozinho na barriga enquanto penso " A ver se é desta...".
A verdade é que mesmo não sabendo, pois  nem os cientistas que tanto sabem parecem saber, eu quero ir!

Contudo, este post é para vos falar de outra coisa, é para registar aqui que estou feliz por voltar a ver  os meus alunos que me dizem " Good Morning" com tantos sotaques diferentes. Os meus alunos são de Angola, de São Tomé, da Ucrânia, da Roménia, da Moldávia, do Brasil, de Marrocos, de Portugal e de tantos lados e, não obstante os desafios que me colocam por vezes, tem-me tornado uma professora melhor.

Sei que há quem defenda para os seus filhos escolas só com meninos provenientes de classe social X, que matriculam alunos em sítios onde os filhos vão conviver com alunos Y, que acham que os alunos só por frequentarem uma escola com nome Z  vão ter futuro assegurado. Como se enganam! É que o Futuro tem uma paleta de cores infinitas - e ainda bem- e os alunos estarão melhor preparados para ele se não  viverem num mundo  apenas com duas ou três tonalidades. 

A minha escola é pública, não tem equipamentos modernos, nela passamos frio e calor e sei das suas fragilidades e imperfeições. E, todavia, é uma escola que aquece, alimenta, desafia, acolhe, ensina,  procura abrir horizontes e tem as portas abertas a quem tantas vezes só as encontra fechadas.

Sei que pais, professores e alunos querem as Escolas abertas- saibamos nós, também,  escancarar as nossas portas!

( Foto minha, tirada com autorização em Angola, 2015)

30 dezembro 2021

Sofia 5.1

dezembro 30, 2021 2
Sofia 5.1

Figueira da Foz, 20.12.2021


Hoje, o Luís, ao ver-me no jardim de carrapito, leggings pretas, uma camisola de capuz herdada do Miguel e uns chinelos que uso na rua, disse-me que me ia tirar uma foto e publicar nas redes sociais.  Ele não o fez, mas assegurei-lhe que não me importaria absolutamente nada.

- Sabes, Luís, eu sou muitas e também sou esta.

Apanhei-o de surpresa, aposto. Afinal, ele conhece-me há mais de trinta anos, sabe que sou vaidosa comigo, que  gosto de limpar e hidratar a pele, de dar uma corzinha ao rosto, de amaciar os lábios, de vestir uma roupa que me faça sentir bonita... Sou, é verdade, mas sou essa e sou outras. E gosto.

- É da idade, dirão.

Eu digo que sim, mas prefiro a expressão  "foi o tempo".

Foi o tempo que me permitiu ler livros, ver  tantas séries e  filmes, que me apresentou pessoas que não esqueço, que me pôs a pensar, que me fez crescer para além do meu metro e meio e da minha rua com pouco mais de dez casas...

E foi o tempo também que me fez ser esta- a que gosta de camisolas macias e sem logos, a que raramente esquece uma écharpe ou um cachecol porque pode arrefecer, a que pensa cada vez mais antes de comprar, a que procura estar atenta ao que se passa à volta.

Não nego que tentarei envelhecer da melhor maneira, mas informo também que penso que já descobri a fórmula para disfarçar rugas, manchas e demais imperfeições físicas- tentar ser melhor, dar mais de mim aos outros e iluminar-me com o que não se compra.

Se o caminho está feito? Ui, ainda agora começou! Por isso, amanhã, ao novo ano que aí vem só pedirei o preciosíssimo tempo.


( Bom 2022 a quem me lê e que, quando o faz, me oferece o seu valioso tempo.)