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13 março 2023

Bicicletas, telefones fixos e a vida como ela é

março 13, 2023 1
Bicicletas, telefones fixos e a  vida como ela é



A estreita relação que eu tenho com a minha bicicleta passou por uns percalços (culpa minha) e hoje tive de a ir buscar a uma superfície comercial que fica a cerca de oito quilómetros de casa.

Ora, eu pus na cabeça que o melhor era ir a pé, voltando de bicicleta, e informei a minha mãe do plano.
D.Matilde, senhora minha mãe, que nasceu em 1939 e tem dificuldade em perceber porque raio a filha anda de bicicleta se tem carta de condução e carro, exclamou:
- " Ai, c'um carago!" *
(*tradução: Esta garota mete-se em cada uma.)
Eu bem lhe disse que não se preocupasse, que eu levava telemóvel.
Mas, mesmo assim, ela suspirou e recomendou:
- Se algum carro parar ao pé de ti, não lhe dês conversa.
Acenei que sim e saí. Quando estava a chegar ao portão ainda ouvi:
- E se precisares e o Miguel não atender o telemóvel, liga para o fixo que eu atendo.
É isto, não é?
Não importa a idade que os filhos têm, as mães e os pais verdadeiros são sempre telefones fixos que nunca ficam sem bateria.

06 março 2023

TPC

março 06, 2023 0
TPC
Vem aí o dia 8 de março e eu continuo a pensar que é muito importante assinalar o dia- por tudo o que se passa no mundo e também (e ainda) à nossa volta.

Contudo, queria aqui deixar uma sugestão às mulheres que passam aqui pelo feed- troquem o habitual jantar do dia 8 por um bilhete para um filme, imponham tempo para ir ver uma exposição, para ir assistir a uma conversa com alguém que acrescenta, para entrar numa biblioteca ou numa livraria.

Não sou moralista e respeito as opções de cada uma. Sei da vida que a maioria das mulheres portuguesas tem, a cuidar dos velhos e novos, a tentar acudir ao trabalho e ao monte de roupa para lavar, a sentar-se à noite, exausta, para adormecer em frente à televisão.

Mas imponham o vosso tempo para ver de outro ângulo, para ouvir outros que acrescentam, para suavizar sombras.

Desafiem- se e vão.

(E deixo aqui o link de algumas das coisas que poderão fazer esta semana em Leiria)

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=637540725048507&id=100063777541337

29 dezembro 2022

Desejo para 2023? Envelhecer

dezembro 29, 2022 4
Desejo para 2023? Envelhecer


Às vezes volto atrás no tempo e vou ver o que escrevi no blogue há dez, doze anos, e tenho um bocadinho de dificuldade em reconhecer-me naquela mulher que desejava ter uma Birkin da Hermès, que fazia uma lista de vestidos que queria comprar, que andava cansada e que se preocupava tanto com o peso e as marcas do envelhecimento.

Não quero com isto dizer que a menina vaidosa que sempre me lembro de ser tenha desaparecido. Nada disso, acho que tal não corre o risco de acontecer e já fiz os meus filhos prometerem que, quando eu for para um lar, falarão com alguém para me tirar pelos que apareçam na cara e dar um jeitinho ao cabelo (juro que já lhes falei nisso:).

 O que quero aqui transmitir é que gosto das malas que eu tenho, e que o meu salário como professora (e que não é de forma nenhuma avultado) me permitiu comprar, e que cuido delas para durarem muito tempo. No outro dia, num passeio em Madrid, ofereceram-me a imitação de uma Birkin que custava quarenta euros. Sorri e agradeci ao senhor- para que queria eu uma mala para me fazer passar pelo que não sou?

Quanto ao peso, se continuo a olhar para os ponteiros da balança, e a prestar atenção ao que eu cozinho, é porque quero continuar a subir escadas e não perder o fôlego, quero andar de bicicleta sem peso extra, quero continuar a repetir vezes sem conta os vestidos bonitos que tenho no meu armário e que escolhi por combinarem comigo, quero continuar a sentir-me leve, porque assim me sinto mais saudável.

Daqui a dez anos, queria muito continuar aqui a escrever no blogue e vir aqui espreitar o que escrevi aos cinquenta e dois. Que mulher serei eu então? Não temo rugas nem manchas, quero apenas continuar a ser uma mulher que continua a querer aprender, que quer mais Ser do que Ter, que ainda não desistiu.

Já perceberam tudo, não é?
Vem aí 2023 e o que eu peço é tanto-  ter tempo para envelhecer por fora.

Um excelente Ano Novo a quem tem envelhecido comigo aqui no blogue e a todos os que continuam ainda, teimosamente, a ler o que uma mulher de cinquenta e dois anos escreve num blogue chamado Gira aos Quarenta.
Obrigada.

Nota: A foto, que pode parecer que não combina com o texto, é apenas uma brincadeira e foi tirada três dias depois dos meus anos, a junho de 2022, num jantar a que vai quem da freguesia de Maceira nasceu em 1970- obrigada, Carlos Costa pelo clique.


Amigos que dão colo

dezembro 29, 2022 0
Amigos que dão colo

No outro dia, disseram-me que eu era uma mulher de família. Eu sorri e fiquei a pensar no assunto- acho que sou sim, mas é quase como se fosse natural em mim.

Todavia, nesta época em que ainda é Natal, em que a minha amiga Paula Alves ainda não me saiu do pensamento, apetece-me falar de amizade.
A amizade é uma química que, tal como o amor, é também difícil de explicar- acontece ou não.
Às vezes acaba, outras mantém-se morna, outras é um calor e aconchego que permanece mesmo quando não estamos perto.
Sempre gostei de fazer amigos. Ainda gosto, mas contudo, gosto ainda mais de os manter.
Conheço as miúdas da foto desde os meus 15 anos e nos últimos aproximamo-nos ainda mais. Somos as cinco muito diferentes, mas une-nos o querer que cada uma esteja sempre o mais bonita e que tenha a melhor vida possível.
É um sentimento lindo a amizade, porque nos escolhemos.
Sou das pessoas sortudas- tenho as quatro da foto, mas tenho mais amigos ainda e, se sou esta hoje, a eles (também) devo.
Hoje, véspera de Natal, agradeço-vos estarem por aqui a lerem-me e desejo-vos amigos, não têm de ser muitos, basta que sejam verdadeiros como os meus- que grande presente de Natal!
Nota- o quadro com a pintura mais bonita é da leiriense Zelinda Gomes e foi dos presentes de Natal mais bonitos que recebi.

03 dezembro 2022

Voltar a Calle Serrano, quase treze anos depois

dezembro 03, 2022 2
Voltar a Calle Serrano, quase treze anos depois

Madrid, Calle Serrano, janeiro de 2010

Madrid, Calle Serrano, outubro de 2022

Quase treze anos depois, voltei a Calle Serrano.

Foi em janeiro de 2010 que eu ganhei um concurso promovido pelo canal Sony e fui a Madrid, com tudo pago, buscar o prémio- escolher uns Manolo Blahnik. Não é novidade e já escrevi muito sobre isso. Foi, aliás, o motivo do blogue Gira aos Quarenta ter nascido. 

Na altura, eu tinha trinta e nove anos e nunca tinha posto os pés em Madrid. Deslumbrei-me com o que vi e com os sapatinhos que trouxe, mas que calcei em pouquíssimas ocasiões. E, olhando hoje para a foto de 2010, quão diferente me vejo hoje. E não, as diferenças que noto não são físicas.

Voltei a Calle Serrano este outubro e quis ir à loja que ficava num bonito pátio, por onde se entrava pelo nº58. Portão fechado, tal como a loja. É que, atualmente, a marca Manolo Blahnik quase só se encontra online, visto que até a icónica loja de Nova Iorque, onde Carrie Bradshaw fazia as suas compras e onde foram gravadas algumas cenas da série " O Sexo e a cidade", fechou.

Sinais dos tempos é o que se costuma dizer, não é?

Mas, escrevia eu, noto diferenças na mulher que sou hoje- menos loura, mais leve, menos deslumbrada com marcas, mais atenta aos outros, e mais sábia, mesmo que sabendo que tenho ainda tanto para aprender.

Se queria voltar no tempo? Nem por um instante. Tenho cinquenta e dois anos e ainda sou uma portuguesa que vivo com a mania que tenho de ter a casa arrumada, exigente comigo profissionalmente, a tentar ser a melhor mãe, mulher, filha e amiga que consigo. Sou, também, contudo, uma mulher que sabe agora que os Manolo Blahnik das séries são desconfortáveis e que, por mais que continue a gostar de saltos altos, sabe que é com pés na terra ou na areia, que se sente verdadeiramente feliz.

Criei um blogue com receio de envelhecer e estou, hoje, a gostar tanto de o poder fazer. 

Voltei a Calle Serrano e vi que fechou a loja dos sapatinhos de sonho. Não me deixou triste, porque sei que, independentemente do que eu calce, está bem aberta a minha vontade de viver.






21 novembro 2022

Para a escola de bicicleta? És mesmo tu, Sofia?

novembro 21, 2022 1
Para a escola de bicicleta? És mesmo tu, Sofia?

Sou!

Foi há dez anos, talvez, que numa visita a uma escola holandesa, pasmei quando vi tantos professores, e até o Diretor da escola, chegar de bicicleta. Acho que tive um bocadinho de inveja e o facto de desde criança adorar andar de bicicleta, aliado ao tempo que passei este último ano na Bélgica, ajudou à resolução- mal pudesse iria também para o trabalho de bicicleta.

E, desde julho, tem acontecido.

Só escrevo agora o post porque receei confirmar o provérbio "É só enquanto a arca cheirar a bolos", mas não. Sempre que as condições meteorológicas o permitem, visto o meu casaco às bolinhas, ponho capacete (quase sempre), pasta no alforge e vou para a escola.

Têm-me perguntado se não tenho medo de andar na estrada e, a verdade, é que tenho. Contudo, tento ir sempre por caminhos não tão movimentados e, para já, a vontade de pedalar tem afastado receios.

E o feliz que sou a pedalar, quase como se fosse sempre Verão Azul mesmo quando não há sol. Há dias em que me sinto a Júlia e outros o Piranha, mas quase sempre me sinto é mais leve e com menos anos, enquanto pedalo e sinto o vento colorir-me o nariz de vermelho.

Era um sonho que tinha ir para a escola de bicicleta. Agora, sonho com ciclovias. E ninguém me diga que não irão acontecer. Afinal, se me dissessem há vinte anos que eu iria para a escola de bicicleta, nem eu própria acreditaria.


Nota: agradeço à minha amiga Susana que me falou no Fundo Ambiental. As candidaturas são até 30 de novembro e comparticipam até 50% o valor gasto na aquisição da bicicleta.

Link aqui:

Fundo Ambiental, Ministério do Ambiente



23 outubro 2022

Angola, Inglaterra, República da Irlanda, Eslováquia, Bélgica...e agora?

outubro 23, 2022 2
Angola, Inglaterra, República da Irlanda, Eslováquia, Bélgica...e agora?
    Angola, Miradouro da Lua

     Liverpool

     Waterford
    Bratislava
 
    Mechelen (cidade preferida na Bélgica)


Foi no dia 29 de junho de 2013 que o Luís foi para a Angola. O Miguel fazia nove anos no dia seguinte e foi uma decisão difícil, muito difícil.

Eu e o Luís fomos um dos muitos casais que foram apanhados pela crise- muitos sabem do que falo... salários em atraso, carreiras congeladas, uma casa para pagar,  éramos  um casal como tantos outros, com dois filhos e uma cadela, que tinha uma convicção-  dar o melhor que conseguíssemos aos nossos filhos.

Muita gente não nos compreendeu- que o dinheiro não era tudo, que tudo se haveria de resolver, que se o Luís esquecesse as suas habilitações e fosse trabalhar para a indústria metalúrgica não faria mal. Tudo certo e respeitámos todas as opiniões, mas hoje, olhando para trás, ainda bem que não as ouvimos e decidimos nós.

Crescemos muito os dois e os nossos filhos também. Não foi fácil, mas quando é que é? O Luís teve momentos muito difíceis em que a saudade dos filhos (e minhas, vá:) foram insuportáveis, eu fiz quilómetros de carro a horas decentes e tardias a levar o Gonçalo e o Miguel e a acompanhá-los para que sofressem o menos possível com a ausência física do pai, o momento em que o meu pai morreu e eu não tive o amparo do meu amor e fiz tudo para que ninguém se apercebesse da falta que senti dele, tanta coisa...

E, todavia, sinto que a viagem valeu e tem valido tanto a pena! 

Quão mais afortunados, compreensivos com o que os outros sofrem e, permitam-me, com muito mais mundo somos hoje.  E o percurso profissional do Luís que me deixa tão orgulhosa e faz com que eu o admire tanto...

Arriscámos. Tem corrido bem e poderia não correr, mas esforçamo-nos muito para que a distância fosse apenas física. E agora?

Agora, uma nova etapa. Queríamos estar mais próximos e o Luís esteve quase para vir para Portugal, mas Madrid tentou-o. Tentou-nos. Por isso, em breve tentaremos recriar esta foto tirada numas férias da Páscoa de 2014. Sempre fomos uma família com esperança e continuamos a ser- Hala Madrid!


(Obrigada a quem tem acompanhado  aqui  pelo blogue e tem torcido sempre por nós)



22 setembro 2022

Menopausa, e então?

setembro 22, 2022 2
Menopausa, e então?

Como bem sabeis, tenho 52 anos e não me tem custado quase nada envelhecer.

Contudo, faz agora um ano, quando a médica me informou que eu estava em plena menopausa, chorei baba e ranho e, a verdade, é que ainda não percebi bem porquê.

Já passou um ano e tem corrido bem, mas sinto sempre que é um assunto muito pouco falado (atentem em mim que só agora escrevo sobre isso), quase como se fosse um pequeno tabu e receassemos passar a ser menos.
- Que parvoíce!- exclamo.

E, contudo, precisei de um ano para escrever sobre isso.

Escreverei mais se (me) fizer sentido. Para já, não há lugar para vergonhas.
Tenho 52 anos e, independentemente da fase em que estou, sinto-me uma mulher sem pausas.
Dêem-me tempo (e saúde) e eu tentarei aproveitá- lo o melhor que souber.