.

05 agosto 2022

Amizade- o tempo certo

agosto 05, 2022 0
Amizade- o tempo certo


Ouço e leio muitas vezes que as mulheres são mazinhas umas para as outras, mas aposto que os homens  também o são entre eles, se calhar assumem e divulgam menos... Não sei se por eu não gostar dessa espécie de má fama, ou se é por eu me sentir tão amada pelas amigas que eu tenho, mas comove-me muito a amizade entre mulheres.

Aconteceu-me há uns dias.

Estava eu sentada e compostinha na bonita Sé de Leiria, à espera de ver entrar a noiva Marta, quando vislumbro as damas de honor,  caras que conheço desde crianças, de rosa vestidas. Entraram comovidas e comoveram-me muito.


Conheço a Marta, a Lili, a Marisa, a Mónica, a Cátia e a Márcia desde crianças. São mais novas do que eu e lembro-as na escola, a casarem, a serem mães, a arriscar na vida pessoal e profissional, a trilharem caminhos com coragem. Com contrariedades decerto, mantiveram-se juntas desde o tempo que ouviam os ralhetes da professora Arlete e, no dia mais bonito de uma delas, a noiva Marta, decidiram calar quem diz que as damas de honor devem ser jovens e com ar angelical e acompanhar a amiga num dia tão bonito e ansiado.

Sou recetiva a fazer amigos novos, mas confesso que me arrepia mais a amizade de anos, a que resiste às distâncias, às contrariedades, aos cansaços, talvez porque me lembra a sorte que eu tenho de ter amigas que me amam há muito, muito tempo.


O tempo.

 Há quem ache que há um tempo certo para tudo. No que concerne à amizade, o tempo certo é o que nos faz bem e felizes. Foi isso que estas miúdas dos Cavalinhos me relembraram: com corpos que pariram filhos vestidos com o que escolheram, de olhos inundados, flores no pulso e passo seguro disseram que a idade nada importa, o que importa é que a amizade que as une faz delas as pessoas certas no tempo certo.


Um beijinho enorme para a Marta, Cátia, Márcia, Marisa e Mónica e permitam-me um beijinho especial para a Lili, que tem sangue "charuto" como eu.


Nota: para quem me segue no Instagram, encontra um vídeo que lhes fiz aqui.








20 julho 2022

Cicatrizar...

julho 20, 2022 1
Cicatrizar...

O tempo tudo cura, diz a minha mãe e o povo. Aceno que sim, mas queria acrescentar que deixa cicatrizes, às vezes fininhas, outras mais visíveis, as que doem com a mudança do tempo, as que escondemos com base...

 Não me importo com cicatrizes. Nem mesmo com as que são visíveis a olho nu. Tenho uma no queixo, por causa de uma rasteira passada pelo meu primo Gilberto, tenho várias nas mãos feitas por gatos, nas pernas uma enorme que me fez um mergulho mal calculado...

E há as outras cicatrizes.

A partida da Paulinha abalou-me e sei que de agora em diante, vou ser outra. 

Fui no sábado a Nelas- e o pensamento óbvio, tantas vezes que poderia ter ido e não fui.

 Ali, na terra dela, numa igreja em que estavam as pessoas que mais a amavam, agradeci tê-la encontrado e ter tido o privilégio de a acompanhar um bocadinho... A dignidade, o fazer ouvir-se a falar baixinho, a doçura, a importância dos laços...Que lição, Paulinha!

Claro que somos diferentes, querida Paula. E sei que me amavas assim: a meter-me em tudo, mais interventiva,  sempre a pensar no que fazer a seguir... Na amizade, como no amor, é bom sermos desiguais e vou continuar o caminho sendo esta que sou. E tu comigo- uma cicatriz bem desenhada que não esconderei.

Seremos a equipa perfeita (e aposto que agora sorriste).


Foto: Bruxelas, 10 de julho 2022. Estava serena, mas mais triste e nem sabia porquê. Apeteceu-me cores escuras e não quis fotografias. Mal mandado, o Luís apanhou-me assim.

11 julho 2022

A amizade não se adia

julho 11, 2022 0
A amizade não se adia


À Paula Alves , que me tornou uma pessoa melhor

💚

Sabem aquela amiga que lê sempre o que nós postamos, que põe um gosto, que manda mensagens, que fica contente com as nossas vitórias, que tem orgulho em nós? Tenho  sorte  de ter algumas assim- a Paulinha é uma delas. 

Não quero que este seja um post triste, quero que seja leve, sereno, doce e que vos faça esboçar um sorriso...tudo o que a Paulinha é.

E não me levem a mal se vos pedir para, em vez de escreverem aqui um comentário triste, mandarem uma mensagem a um amigo a quem já não dizem nada há muito tempo- tenho a certeza que a Paulinha apreciará o gesto (ou então, façam ambas as coisas). 

Conhecemo-nos num janeiro frio de 1990 em Viseu. Ambas com dezanove anos, eu de Dr. Martens nos pés, ela de mocassins pretos e camisa às risquinhas. Quem nos visse, pensaria quão improvável era a nossa amizade.

 Eu com a mania que sabia muito, que lia muitos livros, que morava no litoral, a falar mais do que a ouvir...A Paulinha calma, contemplação e serenidade.Eu a gozar com o sotaque dela e de como ela dizia "presidente"; ela a dizer que se eu era de perto do mar ainda iria acabar a vida a vender peixe (nunca se sabe, Paulinha!).

Líamos ambas a  revista Time e sentíamo-nos importantes por isso. Partilhámos desgostos de amor, amparámo-nos, dormi em casa dela e ela na minha, fomos colegas de estágio e por isso fizemos  a estrada Viseu-Nelas e Viseu-Carregal do Sal vezes sem conta no BMW vermelho do José Armando, nunca houve ciumeiras de notas, de nada- eu queria o melhor para ela e sentia que ela queria o mesmo para mim.

A vida afastou-nos fisicamente, mas nunca definitivamente.
Há pouco mais de um mês, ela ligou-me e senti-lhe a voz enfraquecida. Disse que não me poderia dizer, que não me queria entristecer, mas eu senti logo e ela confirmou-o: o seu corpo adoecia.

Encontramo-nos há quinze dias para um abraço que tardava. Trouxe-a o Paulo, a quem ela chamava marido-anjo. Ela queria ir a um sítio bonito e tranquilo, um lugar que eu gostasse. Levei-a à minha livraria preferida em Leiria e conversámos muito. Outras coisas nem dissemos, porque não foi preciso.

Fomos falando sempre, eu a dizer que a adorava, ela a dizer que eu era um amor. Falámos na quinta-feira e eu gabei-lhe a voz- estava mais forte, iria correr bem.
Não correu. E hoje, quando a tantos quilómetros de Nelas, soube que aí a choravam, revoltei-me, disse palavrões, chorei, busquei consolo no Luís, e na minha minha amiga Carla. 

Depois serenei- eu estava a fazer tudo o que ela não quereria, tudo o que ela não é.

Partiu a Paulinha, mas sinto-a mais viva do que nunca. Vive no coração de tantos a quem a sua doçura tocou,  tal como ela tocou a mim.

Sabes, Paulinha, hoje ainda não consigo... Dá-me só um bocadinho de tempo, mas mal chegue a Portugal, prometo, vou beber uma mini fresquinha e brindar a ti. 

Adoro-te para sempre!

(um beijo enorme para o Paulo, mãe, Rosa e irmãos, sobrinha Joana, Diogo e Martinho- que orgulho transparecia nas palavras da minha amiga sempre que vos referia).
Área de anexos

10 julho 2022

Os rankings, a minha escola e eu

julho 10, 2022 2
Os rankings, a minha escola e eu



A minha primeira escola foi a agora chamada Escola 1º ciclo de Cavalinhos- a mesma escola onde andaram os meus filhos e que pertence ao Agrupamento de Escolas Henrique Sommer (que os meus dois filhos frequentaram do pré-escolar até ao Ensino Secundário).

Leciono também, há vinte e cinco anos, nesse Agrupamento, por isso, não vão ao engano- sou suspeita, muito suspeita.
 Sei igualmente que os rankings valem o que valem e, a maioria das vezes, nem refletem o tanto trabalho que as escolas com meios fragilizados desenvolvem.  Todavia, hoje, só hoje, e (também) como presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas Henrique Sommer, deixem-me dar os parabéns à Comunidade Educativa de Maceira. Que feito!

É que eu sei das horas infindáveis que os elementos da Direção passam na escola ( e aqui é impossível esquecer a cara da instituição- o professor Jorge Bajouco), sei dos cabazes de alimentos que os assistentes operacionais preparam para ajudar famílias de alunos, das sapatilhas que os professores compram quando se apercebem que há um aluno que necessita, das moedas que se dão, sem que ninguém perceba, para que um aluno compre um gelado na visita de estudo, sei dos assistentes operacionais que cuidam dos alunos com condições médicas especiais e que sabem quando alguém não almoça, sei dos meninos que recebemos quando outros fecham portas…  Sei do tanto que trabalha a maioria dos professores (principalmente  do secundário) e sei, sobretudo, dos alunos que  tanto se esforçam para dar o seu melhor.

- A minha professora merece que eu tire uma boa nota, mãe- disse-me o meu Miguel num dos dias em que estudava Matemática para ir fazer o exame nacional. 
Dir-me-ão que é descabido, mas acreditem que eu percebo a frase. Ele reconhece o esforço dos professores que não desistem. E acho que os nossos alunos são um bocadinho assim- querem agradecer a quem neles acredita, a quem lhes diz “Tu consegues!”. E eles conseguem.

- Eu nunca poderei ir a Amsterdão, mas quero que a minha filha vá e depois me conte- ouvi eu.

E esta frase diz muito dos pais dos alunos  da escola. Pais que, na sua maioria, querem que os filhos tenham mais oportunidades que as que lhes couberam e que confiam na escola da sua terra- “uma Escola-Família”como lhe chama o Jornal Público.
Repito, este texto é tudo menos imparcial e, para o ano, o mais provável é que os resultados não sejam estes… Contudo, este é o "momento- agora" e a Escola-Família Henrique Sommer está de parabéns.

Se somos perfeitos? Longe disso- poderia enumerar aqui muitas fragilidades, a começar pelo Parque Escolar envelhecido e que não oferece aos nossos alunos as condições que as escolas “da cidade” têm, pelos professores e assistentes operacionais que começam a faltar…  Somos uma escola imperfeita, como as famílias que conheço, como a minha. Contudo, nas nossas imperfeições sabemos- o único caminho perfeito é o que não nos faz baixar os braços!

Fui sempre aluna de escolas públicas e os meus filhos também o são. Sei que o caminho é longo, mas sei que a Escola Pública é a única oportunidade que muitos terão para mudar o destino. Aconteceu-me a mim.

Link reportagem RTP

Link do Jornal Público
(disponível só para assinantes)

A(minha) vida como ela é

julho 10, 2022 2
A(minha) vida como ela é



Gonçalo a caminho de casa (e como cresceu o meu rapaz neste quase meio ano), o Miguel faz 18 anos e o Luís chega a casa na sexta.


Nunca senti(mos) que os laços estivessem mais frágeis devido à distância, mas aposto que conseguem imaginar como vai ser maravilhoso pôr quatro pratos na mesa. 

(e amar nunca poderá ser rima de aprisionar)

13 junho 2022

Dor suave

junho 13, 2022 7
Dor suave
Arcos de Valdevez, agosto 2020

Fiz cinquenta e dois anos no dia 1de junho. Começou bem o dia- tirei um vestido do armário, iluminei a pele, li algumas mensagens que tinham chegado e saí de casa.
Mentiria era se dissesse que foi um dia muito feliz. Esforcei-me por valorizar as palavras que chegaram, os abraços que recebi, os parabéns cantados pelos meus alunos, mas acabei o dia com uma sensação de aperto.

Gosto muito de fazer anos, mas o facto do Luís não ter conseguido viajar, do Gonçalo estar a tantos quilómetros, de saber de duas grandes amigas com problemas de saúde, não me deixou celebrar.

Tentei agarrar-me ao tanto de bom que tenho à volta, mas não encontrei a leveza que precisava. Ele há dias assim e, eventualmente, foi coincidência ser o dos meus anos.

Não gosto de me queixar, mas por vezes faço-o.

Faço-o hoje, aqui neste meu diário, para lembrar a mim e a quem lê que há dias em que nos sentimos nublados por mais que o sol nos queime a pele. 

Não estamos os quatro juntos desde janeiro e parece que agora, que já só faltam dezessete dias para eu ouvir o Gonçalo chamar-me "Senhora, minha mãe" e colocar o hino do Sporting mais alto do que as canções que gosto de ouvir, o tempo passa ainda mais devagar. 

Não me sinto deprimida, apenas com saudades. E sei, contudo, que tudo está bem. Camilo Castelo Branco escreveu que "a saudade pelos vivos é dor suave" e eu sei a sorte que tenho por a minha ser assim.









14 abril 2022

Filo(Sofia) gratuita

abril 14, 2022 4
Filo(Sofia) gratuita


 Miguel em Barcelona, Gonçalo em Cracóvia, Luís em Bruxelas e eu e a Izzie nos Cavalinhos. 

Tem sido uma semana exigente, mas eu asseguro que não me sinto sozinha.

Sim, talvez por saber que é transitório, que logo, logo chega quem me aconchega, e, talvez, por saber que tenho família e amigos de quem me posso socorrer.

Se não fosse a preocupação por não os ter debaixo de olho, diria que me soube extremamente bem.

Gosto da minha companhia e entendemo-nos perfeitamente.

E, afinal, só podemos estar bem com os outros se estivermos de pazes feitas connosco, não é?

11 março 2022

Ir a Vilnius e voltar

março 11, 2022 1
Ir a Vilnius e voltar




Há uma semana, preparava eu a minha mochila rumo a Vilnius, capital da Lituânia.

Um casaco quente, luvas, cachecol,  uma muda de roupa na mochila e muita vontade de abraçar o meu menino-homem. 

Demorei mais horas em viagem do que na cidade, mas valeu tanto a pena. Quando cheguei ao pequeno aeroporto da cidade, tinha quatro braços à minha espera (o Luís voou de Bruxelas até lá) e muita vontade de ver onde o Gonçalo dormia, com quem partilhava casa, um bocadinho das suas rotinas. E assim foi.


Conheci o amigo com quem ele partilha casa, jantei no seu restaurante preferido e, o mais importante, senti que ele estava  feliz, mais aberto, mais falador e com vontade de continuar por lá até quando fosse possível. Tem vinte e um anos o meus rapaz e sei que é natural ele ter esta fome de mundo e a impaciência natural de quem passou os dois últimos anos praticamente confinado em casa, mas eu precisava, para me tranquilizar nestes dias negros, de saber que ele tem a sorte de estar seguro.

Receei ir, mas fiz bem em ir.

Quanto a Vilnius, cidade próxima da Bielorrússia, é impossível passar ao lado da terrível guerra que assola a Ucrânia. Em cada canto há uma bandeira azul e amarela, recolha de donativos e receia-se o amanhã com um silêncio em que me consigo ouvir , mas que não me permite emitir um queixume.

Tenho tanta sorte. Temos tanta sorte.

(Senti quase pudor em tirar fotos, como se nestes tempos não nos fosse permitido ser feliz,  mas no meu Instagram  ainda encontram uns cliques nos Destaques.