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10 janeiro 2022

Escolas e mentes abertas!

janeiro 10, 2022 2
Escolas e mentes abertas!


Hoje, a minha escola abriu portas para abrir portas.
Sinto um friozinho na barriga enquanto penso " A ver se é desta...".
A verdade é que mesmo não sabendo, pois  nem os cientistas que tanto sabem parecem saber, eu quero ir!

Contudo, este post é para vos falar de outra coisa, é para registar aqui que estou feliz por voltar a ver  os meus alunos que me dizem " Good Morning" com tantos sotaques diferentes. Os meus alunos são de Angola, de São Tomé, da Ucrânia, da Roménia, da Moldávia, do Brasil, de Marrocos, de Portugal e de tantos lados e, não obstante os desafios que me colocam por vezes, tem-me tornado uma professora melhor.

Sei que há quem defenda para os seus filhos escolas só com meninos provenientes de classe social X, que matriculam alunos em sítios onde os filhos vão conviver com alunos Y, que acham que os alunos só por frequentarem uma escola com nome Z  vão ter futuro assegurado. Como se enganam! É que o Futuro tem uma paleta de cores infinitas - e ainda bem- e os alunos estarão melhor preparados para ele se não  viverem num mundo  apenas com duas ou três tonalidades. 

A minha escola é pública, não tem equipamentos modernos, nela passamos frio e calor e sei das suas fragilidades e imperfeições. E, todavia, é uma escola que aquece, alimenta, desafia, acolhe, ensina,  procura abrir horizontes e tem as portas abertas a quem tantas vezes só as encontra fechadas.

Sei que pais, professores e alunos querem as Escolas abertas- saibamos nós, também,  escancarar as nossas portas!

( Foto minha, tirada com autorização em Angola, 2015)

30 dezembro 2021

Sofia 5.1

dezembro 30, 2021 2
Sofia 5.1

Figueira da Foz, 20.12.2021


Hoje, o Luís, ao ver-me no jardim de carrapito, leggings pretas, uma camisola de capuz herdada do Miguel e uns chinelos que uso na rua, disse-me que me ia tirar uma foto e publicar nas redes sociais.  Ele não o fez, mas assegurei-lhe que não me importaria absolutamente nada.

- Sabes, Luís, eu sou muitas e também sou esta.

Apanhei-o de surpresa, aposto. Afinal, ele conhece-me há mais de trinta anos, sabe que sou vaidosa comigo, que  gosto de limpar e hidratar a pele, de dar uma corzinha ao rosto, de amaciar os lábios, de vestir uma roupa que me faça sentir bonita... Sou, é verdade, mas sou essa e sou outras. E gosto.

- É da idade, dirão.

Eu digo que sim, mas prefiro a expressão  "foi o tempo".

Foi o tempo que me permitiu ler livros, ver  tantas séries e  filmes, que me apresentou pessoas que não esqueço, que me pôs a pensar, que me fez crescer para além do meu metro e meio e da minha rua com pouco mais de dez casas...

E foi o tempo também que me fez ser esta- a que gosta de camisolas macias e sem logos, a que raramente esquece uma écharpe ou um cachecol porque pode arrefecer, a que pensa cada vez mais antes de comprar, a que procura estar atenta ao que se passa à volta.

Não nego que tentarei envelhecer da melhor maneira, mas informo também que penso que já descobri a fórmula para disfarçar rugas, manchas e demais imperfeições físicas- tentar ser melhor, dar mais de mim aos outros e iluminar-me com o que não se compra.

Se o caminho está feito? Ui, ainda agora começou! Por isso, amanhã, ao novo ano que aí vem só pedirei o preciosíssimo tempo.


( Bom 2022 a quem me lê e que, quando o faz, me oferece o seu valioso tempo.)





11 dezembro 2021

Os heróis moram na casa ao lado- O Senhor Zé

dezembro 11, 2021 16
Os heróis moram na casa ao lado- O Senhor Zé


Há uns anos, numa reunião, uma colega verbalizou à frente dos que estavam que eu tinha a mania que era a Madre Teresa de Calcutá. Sei que engoli em seco, não respondi e pensei que afinal ela me conhecia muito mal, pois se soubesse como eu era, de que defeitos,  pensamentos e palavras  sou feita, não diria tal coisa. 

Adiante, pois este texto não é sobre mim, mas o parágrafo inicial serve apenas para contextualizar , pois há quem diga que  eu vejo tudo de um prisma demasiado positivo. Talvez sim, mas as redes socias são minhas. O blogue e a vida também.

Adiante de novo. Serve este post para vos falar do Sr. Zé.

O Sr. Zé é das pessoas mais importantes e respeitadas da minha escola e da minha freguesia. Ele conhece gerações inteiras de maceirenses, sabe do que ninguém sabe dos alunos, tira bolas de cima dos telhados, arranja o que está estragado, manda os meninos comerem a sopa e preocupa-se se eles comem pouco, está atento a quem é  estranho e se aproxima da escola, desinfeta mãos, cuida dos cães da escola com zelo e, só com um braço funcional, ajuda sempre quem mais aflito está.

Conhecemo-nos era ainda eu solteira e ele não era avô.  É uma figura de referência para os meus filhos, gosto muito de o ouvir e nunca esqueci o dia em que mudou o pneu furado do meu carro, enquanto eu olhava para ele embasbacada (e o carro não era pequeno).

- Deixe estar, professora Sofia. Eu mudo-lhe o pneu. Não me custa nada.


A foto  que ilustra este post tirei-lha eu faz hoje quinze dias. Sábado de manhã, passava eu em frente à escola para ir aviar as dezenas de medicamentos que a minha mãe toma e deparo-me com ele em frente ao portão. Parei o carro, falamos um bocadinho dos filhos e ele contou-me que estava  ali à espera de uma empresa que tinha de ir montar um novo frigorifico. À espera, de portão aberto, a ajudar a escola que é dele, sem nada receber em troca que não palavras de reconhecimento.

Despedi-me, entrei no carro e avancei. E fiz marcha-atrás.

- Posso tirar-lhe uma foto, Sr. Zé?

Acedeu (ele era lá homem para me negar um pedido) e  ela mostra como eu o vejo: um ser humano enorme que, vítima de acidentes e injustiças, nunca deixou que tal lhe o amargasse o sorriso ou afetasse o modo   de estar atento a quem dele precisa.

Digo muitas vezes isto aos alunos e já o devem ter lido por aqui- os heróis são sempre um bocadinho improváveis  e estão muitas vezes ao nosso lado. Assim é o Sr. Zé- um dos meus heróis, um homem discreto que não tem redes sociais, não sabe o que são seguidores no Facebook ou Instagram e, muito provavelmente, nunca lerá este meu post. *

* Não faz mal que não leia. Eu já lho disse e agradeci.



08 dezembro 2021

Procurar a(s) luz(es)

dezembro 08, 2021 1
Procurar a(s) luz(es)






Viajar e tempos pandémicos, já o escrevi por aqui, não é para mim combinação fácil.

Tenho receios, sou naturalmente ansiosa, prevejo riscos, imagino-me a testar positivo e a não poder voltar a Portugal e faço sempre cenários dignos de filme de terror.

O que vale é que já me conheço há mais de cinquenta anos e vou- a minha situação familiar é esta e sei que não viajo só porque sim. Então, contrario medos e faço-me ao caminho.

Fui na sexta-feira e voltei na segunda (ou como costuma dizer, fui num pé e voltei noutro), e  aproveitei, dentro do possível, a cidade de Bruxelas- No Natal, foi a primeira vez que a visitei. Mentiria era se dissesse que andei pela cidade de ânimo leve. Impossível- os números de infetados na Bélgica não são  animadores e sempre que andava na rua sentia-me um bocadinho como aqueles desenhos animados que andam com uma nuvem negra em cima da cabeça:). 

Apesar do frio, optamos por almoçar na esplanada (os aquecedores nas esplanadas ajudam) e usufruímos da cidade ao ar livre. Bruxelas, e principalmente a Grand-place que tem um espetáculo de luz e som fantástico, está bonita e o facto de estar com o Luís torna tudo mais mágico.

Se gostei de ir? Muito. 

Se valeu a pena enfrentar medos? Claro.

(contudo, acho que a nuvem só se desvaneceu quando, na segunda-feira, ao entardecer, estacionei o carro em frente à Câmara Municipal de Leiria e as luzes da minha cidade, apagaram, de vez , o cinzento que me acompanhou).




 



11 novembro 2021

Memórias com sabor

novembro 11, 2021 0
Memórias com sabor


 Os dias têm sido corridos, mas não me queixo. Tenho a lição bem sabida, ou não me tivesse a D. Guilhermina ensinado que não me queixasse, mas antes agradecesse a Deus ter saúde. E, para além disso, como já ouvi alguém dizer "aqui ninguém tem cara de Ben-u-ron".

Hoje é dia 11 de novembro, dia em que a minha avó Perpétua faria anos e em que disse adeus ao meu pai. Lembro-os hoje (e todos os dias) e sinto falta das castanhas que os meus pais assavam no fogão de sala que o ti Arnaldo fez no dia 25 de abril de 1974.
Aqui por casa (ainda) não há castanhas, mas no fim de semana, já sei onde as irei comprar. Se são de Leiria, claro que já sabem o segredo das melhores castanhas- Avenida Heróis de Angola, ali ao virar de uma esquina, uma senhora bonita, que começou o seu negócio antes mesmo da palavra empreendedorismo se tornar moda, vende as castanhas mais quentinhas e saborosas.
São quase seis horas, o dia ainda não acabou, não tenho a panela ao lume, mas tenho legislação para ler.
Suspiro e penso outra vez nas castanhas. Ainda bem que hoje os meninos do 4ºA da professora Teresa Salvador me ofereceram umas quentinhas. Se tal não fosse, dizia adeus ao trabalho, pegava no carro e fugia até Leiria.
Não vou hoje, mas no sábado não falharei- vou comprar um cartuchinho de castanhas, dividi-las com o meu amor e pensar em cada um que, em mim, é e será sempre, como o homem das castanhas que canta Carlos do Carmo, eterno.

05 novembro 2021

Aos de amanhã!

novembro 05, 2021 1
Aos de amanhã!


Sabem aquele nervoso miudinho que nos invade sempre que ouvimos algo que nos desagrada profundamente? Não me acontece muito, mas se existe algo que mais me faz abandonar este meu ar doce e tranquilo é ouvir comentários negativos acerca das pessoas que são mais novas do que quem os pronuncia. Normalmente, a clássica frase começa com "Esta malta nova de agora..."  E pronto! Estas cinco palavrinhas que, isoladamente, são tão bem comportadas, quando se juntam nos meus ouvidos provocam-me tantos calafrios que me fazem ferver e aparecer esta Sofia mais ranzinza que (também) sou.

Acredito muito nas pessoas mais novas e sei  de mil exemplos que os comprovam.  Para não vos maçar, Conto-vos apenas dois.

Aeroporto  de Lisboa, passageiros a postos para embarcar e uma senhora, na fila, com evidentes problemas de mobilidade, a tentar caminhar com a sua bagagem. Eu  olhei para ela, mas só a vi quando um rapaz de vinte e poucos anos se aproximou e lhe ofereceu a preciosa ajuda que ela aceitou. Observei então à minha volta- éramos todos mais velhos do que o miúdo que agiu.

Há uns tempos, na minha escola, um professor  caiu no intervalo e fez-se silêncio  só cortado por pedidos de ajuda. Nem uma gargalhada, nem um " já é velhote", nem um nada- apenas preocupação e carinho.

Vão-me dizer que são exceções e eu nego. Eu e as pessoas da minha geração ( e mais velhos) não somos melhores, apenas crescemos em tempos diferentes.

Tenho este ano (e felizmente) alguns professores mais novos na minha escola- e é uma bênção.  Não pensem que desvalorizo os mais antigos, com quem tanto aprendi, mas faz-me bem ver a sala  de professores cheia de outras energias, gosto de lhes roubar ideias, de lhes ouvir opiniões, de lhes mostrar a minha solidariedade com  os tempos  tão difíceis que vivem sem se queixarem.

Há quem diga que  eu aparento menos idade do que tenho, e eu penso que talvez seja por eu prestar mais atenção ao futuro do que ao passado. Se assim não fosse, como é que me levantava  quando o despertador toca pela manhã?





05 outubro 2021

Uma família com esperança

outubro 05, 2021 2
Uma família com esperança

 


Quem me segue aqui no blogue há mais de dez anos, dirá certamente: Estão crescidos!

 Passou num instante é a frase comum que me ocorre e é verdadeira. Somos estes agora.

Foi um dia feliz o de sábado- o Miguel confirmou a sua fé com o Crisma, escolheu a melhor madrinha e festejamos em família rodeados de quem gosta e torce por nós. Às vezes dizem-me que não sabem como conseguimos estar separados fisicamente (o Luís está neste momento a trabalhar em Bruxelas) e eu detesto que o digam. Irrita-me a observação, talvez porque subentendo uma crítica velada. Também não gosto que digam "Ai eu nunca conseguiria" como se o facto de a nossa família ser implicar que temos laços menos fortes.

A nossa família não é perfeita, mas nunca senti que o facto de o Luís estar fora nos fizesse viver com menos amor. Se é fácil? Não. Se temos momentos dolorosos? Verdade. Se nos faltou alguma vez amor? Não.

Cada família zela pelos seus (ou assim deveria ser) e este caminho e estas opções que temos feito foi sempre tendo em conta o bem estar e a felicidade de todos.

Se vamos continuar mais anos assim? Penso que não, mas a vida ensinou-me a ir vivendo e a não fazer muitos planos. Os nossos filhos estão crescidos e são miúdos trabalhadores e esforçados (o Gonçalo acabou Matemática Aplicada e Computação no Técnico e está no mestrado que escolheu e o Miguel frequenta o 12º ano) e eu e o Luís continuamos a querer envelhecer juntos.

Aqui no blogue, senti sempre muito carinho desde este post, quando escrevi que o Luís ia para Angola, e pelo amor que sempre senti, quis escrever este texto. Obrigada. Foi também pela força que sempre recebi desse lado que o percurso tem sido mais leve.





ELEIÇÕES E A FAZENDA QUE NÃO PODEREI VENDER

outubro 05, 2021 0
 ELEIÇÕES E A FAZENDA QUE NÃO PODEREI VENDER

Esta foto foi tirada logo na semana a seguir a ter concluído o meu curso e, sempre que a vejo, relembro o que o meu pai me disse na altura.

" Sofia, dei-te uma fazenda que não poderás vender"- disse-me ele.
Tenho quase a certeza que acenei afirmativamente, mas que não dei importância à frase. Afinal, eu tinha vinte e três anos, queria começar a trabalhar rapidamente para ganhar o meu dinheiro, ter alunos meus a quem ensinar e tinha a mania que eu sabia muito.
Não liguei à frase, repito, mas agora, a frase ocorre-me muitas vezes...O meu pai deu-me uma fazenda que eu não posso vender e, apesar de no contexto em que ele o disse se referir ao curso que eu acabara, eu, hoje, vejo que a fazenda teve mais a ver com exemplo de vida, com a vontade de ir e não deixar que a preguiça se instale, e com o facto de ser impensável para mim não ir votar...
Não imagino o meu pai a não ir votar e ele fê-lo até ao fim. Lembro a última vez, ele já em cadeira de rodas e eu a acompanhá-lo, eu a fazer a cruzinha no partido que ele pretendia, pois o facto de ele já não segurar bem a esferográfica poderia invalidar o voto. Tenho quase a certeza que não foi confortável para ele assumir esta fragilidade, mas impensável não cumprir o seu dever.
É por isso, também, que a abstenção me deixa triste- Como não manifestar a nossa intenção? Como ficar de fora de uma escolha que se deve fazer? Como não ser senhorio desse direito nosso, que une ricos e menos afortunados, baixos e altos, simpáticos e rabugentos? Como não usufruir dessa fazenda que é o nosso direito ao voto?
Estive ontem numa Mesa de Voto e confesso que não é algo que goste muito- eu tenho sempre receio de que algo corra mal, eram três boletins de voto e a responsabilidade que sinto põe-me nervosa. Mas sorri atrás da máscara e fiquei feliz por cada eleitor a quem disse o nome em voz alta- afinal, eles, ao contrário da maioria, tinham saído de casa e tinham ido votar. É assim que sinto estar a dar uso à maravilhosa fazenda que ele, homem com a quarta classe tirada na tropa, me deixou- a educação e os valores.
*Quanto aos resultados- correu muito bem. Agradeço a confiança a quem me convidou a integrar a lista do PS à Assembleia Municipal de Leiria, aos meus companheiros de lista da Maceira e de Leiria, aos que gostaram de me ver ser parte dela e aos que votaram.
Não vou mudar o mundo, mas ninguém duvide que darei o meu melhor. A fazenda que o meu pai me deixou não me permitiria outra coisa.