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21 novembro 2022

Para a escola de bicicleta? És mesmo tu, Sofia?

novembro 21, 2022 0
Para a escola de bicicleta? És mesmo tu, Sofia?

Sou!

Foi há dez anos, talvez, que numa visita a uma escola holandesa, pasmei quando vi tantos professores, e até o Diretor da escola, chegar de bicicleta. Acho que tive um bocadinho de inveja e o facto de desde criança adorar andar de bicicleta, aliado ao tempo que passei este último ano na Bélgica, ajudou à resolução- mal pudesse iria também para o trabalho de bicicleta.

E, desde julho, tem acontecido.

Só escrevo agora o post porque receei confirmar o provérbio "É só enquanto a arca cheirar a bolos", mas não. Sempre que as condições meteorológicas o permitem, visto o meu casaco às bolinhas, ponho capacete (quase sempre), pasta no alforge e vou para a escola.

Têm-me perguntado se não tenho medo de andar na estrada e, a verdade, é que tenho. Contudo, tento ir sempre por caminhos não tão movimentados e, para já, a vontade de pedalar tem afastado receios.

E o feliz que sou a pedalar, quase como se fosse sempre Verão Azul mesmo quando não há sol. Há dias em que me sinto a Júlia e outros o Piranha, mas quase sempre me sinto é mais leve e com menos anos, enquanto pedalo e sinto o vento colorir-me o nariz de vermelho.

Era um sonho que tinha ir para a escola de bicicleta. Agora, sonho com ciclovias. E ninguém me diga que não irão acontecer. Afinal, se me dissessem há vinte anos que eu iria para a escola de bicicleta, nem eu própria acreditaria.


Nota: agradeço à minha amiga Susana que me falou no Fundo Ambiental. As candidaturas são até 30 de novembro e comparticipam até 50% o valor gasto na aquisição da bicicleta.

Link aqui:

Fundo Ambiental, Ministério do Ambiente



23 outubro 2022

Angola, Inglaterra, República da Irlanda, Eslováquia, Bélgica...e agora?

outubro 23, 2022 2
Angola, Inglaterra, República da Irlanda, Eslováquia, Bélgica...e agora?
    Angola, Miradouro da Lua

     Liverpool

     Waterford
    Bratislava
 
    Mechelen (cidade preferida na Bélgica)


Foi no dia 29 de junho de 2013 que o Luís foi para a Angola. O Miguel fazia nove anos no dia seguinte e foi uma decisão difícil, muito difícil.

Eu e o Luís fomos um dos muitos casais que foram apanhados pela crise- muitos sabem do que falo... salários em atraso, carreiras congeladas, uma casa para pagar,  éramos  um casal como tantos outros, com dois filhos e uma cadela, que tinha uma convicção-  dar o melhor que conseguíssemos aos nossos filhos.

Muita gente não nos compreendeu- que o dinheiro não era tudo, que tudo se haveria de resolver, que se o Luís esquecesse as suas habilitações e fosse trabalhar para a indústria metalúrgica não faria mal. Tudo certo e respeitámos todas as opiniões, mas hoje, olhando para trás, ainda bem que não as ouvimos e decidimos nós.

Crescemos muito os dois e os nossos filhos também. Não foi fácil, mas quando é que é? O Luís teve momentos muito difíceis em que a saudade dos filhos (e minhas, vá:) foram insuportáveis, eu fiz quilómetros de carro a horas decentes e tardias a levar o Gonçalo e o Miguel e a acompanhá-los para que sofressem o menos possível com a ausência física do pai, o momento em que o meu pai morreu e eu não tive o amparo do meu amor e fiz tudo para que ninguém se apercebesse da falta que senti dele, tanta coisa...

E, todavia, sinto que a viagem valeu e tem valido tanto a pena! 

Quão mais afortunados, compreensivos com o que os outros sofrem e, permitam-me, com muito mais mundo somos hoje.  E o percurso profissional do Luís que me deixa tão orgulhosa e faz com que eu o admire tanto...

Arriscámos. Tem corrido bem e poderia não correr, mas esforçamo-nos muito para que a distância fosse apenas física. E agora?

Agora, uma nova etapa. Queríamos estar mais próximos e o Luís esteve quase para vir para Portugal, mas Madrid tentou-o. Tentou-nos. Por isso, em breve tentaremos recriar esta foto tirada numas férias da Páscoa de 2014. Sempre fomos uma família com esperança e continuamos a ser- Hala Madrid!


(Obrigada a quem tem acompanhado  aqui  pelo blogue e tem torcido sempre por nós)



22 setembro 2022

Menopausa, e então?

setembro 22, 2022 2
Menopausa, e então?

Como bem sabeis, tenho 52 anos e não me tem custado quase nada envelhecer.

Contudo, faz agora um ano, quando a médica me informou que eu estava em plena menopausa, chorei baba e ranho e, a verdade, é que ainda não percebi bem porquê.

Já passou um ano e tem corrido bem, mas sinto sempre que é um assunto muito pouco falado (atentem em mim que só agora escrevo sobre isso), quase como se fosse um pequeno tabu e receassemos passar a ser menos.
- Que parvoíce!- exclamo.

E, contudo, precisei de um ano para escrever sobre isso.

Escreverei mais se (me) fizer sentido. Para já, não há lugar para vergonhas.
Tenho 52 anos e, independentemente da fase em que estou, sinto-me uma mulher sem pausas.
Dêem-me tempo (e saúde) e eu tentarei aproveitá- lo o melhor que souber.

13 setembro 2022

À minha procura na Festa do Sagrado

setembro 13, 2022 0
À minha procura na Festa do Sagrado


Durante muito tempo contei os anos que faltavam para fazer a Festa do Sagrado. Explicando um pouco melhor, diz a tradição da minha terra que quem chegar aos cinquenta anos e tenha nascido ou resida na freguesia de Maceira, faz a festa.

Eu não sei como é nas vossas terras, mas na minha as pessoas dão o seu melhor para fazer a mais bonita das festas. É escolhida uma cor, enfeitam-se andores, mandam-se fazer t-shirts e polos com o símbolo e tiram-se férias para se poder trabalhar na preparação dos cinco dias em que dura a Festa do Sagrado Coração de Jesus.

Este ano, os nascidos em 1972 prepararam uma festa muito bonita e o meu grupo de 70, tal como os de outros anos, juntou-se de novo no arraial ao lado da Igreja Paroquial de Maceira. Saí desse dia de setembro a correr da escola, vesti o meu polo laranja e fui ter com aqueles que têm envelhecido comigo. 

O meu grupo, devido à pandemia, não fez a festa, mas vivemo-la de cada vez que nos encontramos. Na verdade, somos todos muito diferentes uns dos outros, mas quando o encontro se dá, temos todos catorze anos outra vez, cantamos alto o Summer of 69 do Bryan Adams como se estivéssemos no Altice Arena, converso com pessoas que vejo menos do que gostaria, danço músicas que não estão na minha playlist e o "pequeno milagre" do colo acontece.

Voltámos este ano e de novo o "pequeno milagre" me aconteceu. Vivendo numa aldeia de Maceira e dando aulas na escola da minha terra há vinte e cinco anos, sinto muitas vezes necessidade de me apagar. No entanto, é com os que nasceram em 1970 que tudo acontece- com eles eu deixo de ser a professora Sofia, a única dor que tenho é a de barriga de tanto me rir e sou apenas (e sou tanto) a "Sofia do nosso ano". 

Gosto de ir, de descobrir novas terras, sinto muitas vezes que poderia viver noutro lugar, mas quando as Festas do Sagrado acontecem, se eu me procurar, descubro que  tenho sempre  um lugar para onde voltar.














Filo(sofia) barata

setembro 13, 2022 1
Filo(sofia) barata
Aprendi a nadar sozinha, nem dez anos teria, no mar da praia Paredes da Vitória. Lembro-me de observar os outros e tentar uma e outra vez até conseguir manter-me à tona.
Agora, mais velha, continuo a observar para me deixar ir. É uma (outra) forma de me manter à tona.

05 agosto 2022

Amizade- o tempo certo

agosto 05, 2022 1
Amizade- o tempo certo


Ouço e leio muitas vezes que as mulheres são mazinhas umas para as outras, mas aposto que os homens  também o são entre eles, se calhar assumem e divulgam menos... Não sei se por eu não gostar dessa espécie de má fama, ou se é por eu me sentir tão amada pelas amigas que eu tenho, mas comove-me muito a amizade entre mulheres.

Aconteceu-me há uns dias.

Estava eu sentada e compostinha na bonita Sé de Leiria, à espera de ver entrar a noiva Marta, quando vislumbro as damas de honor,  caras que conheço desde crianças, de rosa vestidas. Entraram comovidas e comoveram-me muito.


Conheço a Marta, a Lili, a Marisa, a Mónica, a Cátia e a Márcia desde crianças. São mais novas do que eu e lembro-as na escola, a casarem, a serem mães, a arriscar na vida pessoal e profissional, a trilharem caminhos com coragem. Com contrariedades decerto, mantiveram-se juntas desde o tempo que ouviam os ralhetes da professora Arlete e, no dia mais bonito de uma delas, a noiva Marta, decidiram calar quem diz que as damas de honor devem ser jovens e com ar angelical e acompanhar a amiga num dia tão bonito e ansiado.

Sou recetiva a fazer amigos novos, mas confesso que me arrepia mais a amizade de anos, a que resiste às distâncias, às contrariedades, aos cansaços, talvez porque me lembra a sorte que eu tenho de ter amigas que me amam há muito, muito tempo.


O tempo.

 Há quem ache que há um tempo certo para tudo. No que concerne à amizade, o tempo certo é o que nos faz bem e felizes. Foi isso que estas miúdas dos Cavalinhos me relembraram: com corpos que pariram filhos vestidos com o que escolheram, de olhos inundados, flores no pulso e passo seguro disseram que a idade nada importa, o que importa é que a amizade que as une faz delas as pessoas certas no tempo certo.


Um beijinho enorme para a Marta, Cátia, Márcia, Marisa e Mónica e permitam-me um beijinho especial para a Lili, que tem sangue "charuto" como eu.


Nota: para quem me segue no Instagram, encontra um vídeo que lhes fiz aqui.








20 julho 2022

Cicatrizar...

julho 20, 2022 1
Cicatrizar...

O tempo tudo cura, diz a minha mãe e o povo. Aceno que sim, mas queria acrescentar que deixa cicatrizes, às vezes fininhas, outras mais visíveis, as que doem com a mudança do tempo, as que escondemos com base...

 Não me importo com cicatrizes. Nem mesmo com as que são visíveis a olho nu. Tenho uma no queixo, por causa de uma rasteira passada pelo meu primo Gilberto, tenho várias nas mãos feitas por gatos, nas pernas uma enorme que me fez um mergulho mal calculado...

E há as outras cicatrizes.

A partida da Paulinha abalou-me e sei que de agora em diante, vou ser outra. 

Fui no sábado a Nelas- e o pensamento óbvio, tantas vezes que poderia ter ido e não fui.

 Ali, na terra dela, numa igreja em que estavam as pessoas que mais a amavam, agradeci tê-la encontrado e ter tido o privilégio de a acompanhar um bocadinho... A dignidade, o fazer ouvir-se a falar baixinho, a doçura, a importância dos laços...Que lição, Paulinha!

Claro que somos diferentes, querida Paula. E sei que me amavas assim: a meter-me em tudo, mais interventiva,  sempre a pensar no que fazer a seguir... Na amizade, como no amor, é bom sermos desiguais e vou continuar o caminho sendo esta que sou. E tu comigo- uma cicatriz bem desenhada que não esconderei.

Seremos a equipa perfeita (e aposto que agora sorriste).


Foto: Bruxelas, 10 de julho 2022. Estava serena, mas mais triste e nem sabia porquê. Apeteceu-me cores escuras e não quis fotografias. Mal mandado, o Luís apanhou-me assim.

11 julho 2022

A amizade não se adia

julho 11, 2022 0
A amizade não se adia


À Paula Alves , que me tornou uma pessoa melhor

💚

Sabem aquela amiga que lê sempre o que nós postamos, que põe um gosto, que manda mensagens, que fica contente com as nossas vitórias, que tem orgulho em nós? Tenho  sorte  de ter algumas assim- a Paulinha é uma delas. 

Não quero que este seja um post triste, quero que seja leve, sereno, doce e que vos faça esboçar um sorriso...tudo o que a Paulinha é.

E não me levem a mal se vos pedir para, em vez de escreverem aqui um comentário triste, mandarem uma mensagem a um amigo a quem já não dizem nada há muito tempo- tenho a certeza que a Paulinha apreciará o gesto (ou então, façam ambas as coisas). 

Conhecemo-nos num janeiro frio de 1990 em Viseu. Ambas com dezanove anos, eu de Dr. Martens nos pés, ela de mocassins pretos e camisa às risquinhas. Quem nos visse, pensaria quão improvável era a nossa amizade.

 Eu com a mania que sabia muito, que lia muitos livros, que morava no litoral, a falar mais do que a ouvir...A Paulinha calma, contemplação e serenidade.Eu a gozar com o sotaque dela e de como ela dizia "presidente"; ela a dizer que se eu era de perto do mar ainda iria acabar a vida a vender peixe (nunca se sabe, Paulinha!).

Líamos ambas a  revista Time e sentíamo-nos importantes por isso. Partilhámos desgostos de amor, amparámo-nos, dormi em casa dela e ela na minha, fomos colegas de estágio e por isso fizemos  a estrada Viseu-Nelas e Viseu-Carregal do Sal vezes sem conta no BMW vermelho do José Armando, nunca houve ciumeiras de notas, de nada- eu queria o melhor para ela e sentia que ela queria o mesmo para mim.

A vida afastou-nos fisicamente, mas nunca definitivamente.
Há pouco mais de um mês, ela ligou-me e senti-lhe a voz enfraquecida. Disse que não me poderia dizer, que não me queria entristecer, mas eu senti logo e ela confirmou-o: o seu corpo adoecia.

Encontramo-nos há quinze dias para um abraço que tardava. Trouxe-a o Paulo, a quem ela chamava marido-anjo. Ela queria ir a um sítio bonito e tranquilo, um lugar que eu gostasse. Levei-a à minha livraria preferida em Leiria e conversámos muito. Outras coisas nem dissemos, porque não foi preciso.

Fomos falando sempre, eu a dizer que a adorava, ela a dizer que eu era um amor. Falámos na quinta-feira e eu gabei-lhe a voz- estava mais forte, iria correr bem.
Não correu. E hoje, quando a tantos quilómetros de Nelas, soube que aí a choravam, revoltei-me, disse palavrões, chorei, busquei consolo no Luís, e na minha minha amiga Carla. 

Depois serenei- eu estava a fazer tudo o que ela não quereria, tudo o que ela não é.

Partiu a Paulinha, mas sinto-a mais viva do que nunca. Vive no coração de tantos a quem a sua doçura tocou,  tal como ela tocou a mim.

Sabes, Paulinha, hoje ainda não consigo... Dá-me só um bocadinho de tempo, mas mal chegue a Portugal, prometo, vou beber uma mini fresquinha e brindar a ti. 

Adoro-te para sempre!

(um beijo enorme para o Paulo, mãe, Rosa e irmãos, sobrinha Joana, Diogo e Martinho- que orgulho transparecia nas palavras da minha amiga sempre que vos referia).
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