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15 setembro 2019

setembro 15, 2019 0
Se há uns anos me dissessem que um dia eu teria vontade de fazer as malas e partir, eu iria sorrir, esquecer o comentário e prosseguir com a minha vidinha.
Quão imprevisível é, contudo, a vida…
Todos os meses vejo pessoas a partir. Decididas. Corajosas. Fartas de um país que pouco apoia quem trabalha e quem quer lutar por uma vida melhor. Cansadas de um país que não protege a natalidade nem a educação dos filhos. Receosas deste país em que temos cada vez mais medo de adoecer e envelhecer.
E, a grande maioria que eu conheço, é gente muito válida, esforçada e trabalhadora, mas que não aguenta mais as náuseas de viver num país que se esqueceu das suas pessoas e em que quase parece proibido ter sonhos e ambições.
O que nos falta entregar a este país em nome da austeridade? Já lhe entregámos os nossos subsídios e a nossa esperança. Já lhe entregámos tantas famílias que Portugal separou e incitou a partir. Já lhe entregámos tanto, mas nada parece ser suficiente.
Aqui em casa, já há malas que estão a ser preparadas, escondem-se lágrimas e antecipam-se saudades. Quanto a mim, tenho cada vez mais vontade de arrumar as minhas trouxas e ir embora também. Desiludida, embora não vergada, mas sem vontade de contrariar esta determinação enorme que me consome e me dá vontade de, também eu, partir.
(texto publicado a 23 de maio de 2013)

30 agosto 2019

Ir e voltar

agosto 30, 2019 1
Ir e voltar


Tenho a sorte de poder sair de Portugal com alguma frequência e, sempre que viajo, costumo fazer o exercício de pensar como seria viver na cidade X. Enumero  as vantagens, peso as desvantagens e sinto vontade de, mais dia menos dia, quando os filhos mais crescidos estiverem,  sair por mais do que duas ou três semanas.
Este mês estive em  Bratislava pela quarta vez. Entre um Dobré ráno [i]e um Ďakuje[ii]m tentei fazer a minha vidinha como se eu não estivesse apenas de visita. Fui aos mesmos  supermercados que os eslovacos vão, caminhei quilómetros nas pistas que existem para o efeito, banhei-me nos lagos em vez de ir à praia, remexi prateleiras nas lojas de roupa em segunda mão, tentei falar mais baixinho e deliciei-me com o silêncio dos locais públicos (a cada dia me sabe melhor entrar num sítio cheio de gente e não ouvir muito barulho).
Senti falta da minha cadela, dos meus familiares mais próximos e de alguns amigos. Salivei por peixe que é muito caro em terras eslovacas, queixei-me um bocadinho das altas temperaturas que se fizeram sentir e que me fizeram transpirar tanto que pensei que fosse a menopausa a chegar!

Mas regressei à minha casa branca, onde moram  os azulejos e a mobília que escolhi, onde as divisões estão cheias de memórias…  Quando eu absorta  pensava que talvez não fosse infeliz se não tivesse regressado (desde que tivesse o Luís e os meus filhos por perto), ouvi tocar a campainha.

Levantei-me um bocadinho a custo e fui abrir a porta. Do outro lado, com um saquinho de feijão verde tenrinho acabado de apanhar na mão e beijinhos repenicados para me oferecer, estava a Ti Joaquina- a melhor das vizinhas- a saudar-me, a estender-me os braços, a dizer-me que todos os dias olhava para a minha casa a ver se eu já voltara e, sem o saber, a fazer-me compreender que o meu lugar (ainda) é nesta rua de dez casas onde moro.


[i]  Bom dia
[ii] Obrigado

Texto publicado em agosto de 2019 no jornal "Maceira à letra"

21 agosto 2019

Camarinhas e umas palmadas (bem) dadas!

agosto 21, 2019 0
Camarinhas e umas palmadas (bem) dadas!



No domingo, fomos até São Pedro Moel, praia da minha infância  e da do Luís ( que vinha de Viseu passar férias nessa vila). Quando regressávamos a casa, pela bonita estrada que vai dar à Vieira de Leiria, eu gritei: Pára o carro! Camarinhas!
Ao Luís, beirão, não lhe dizem muito as camarinhas, mas a mim...dizem muito, principalmente por causa da história que conto a seguir.

Só me lembro da minha mãe se ter zangado a sério comigo duas vezes. A última, deveria eu ter uns doze, treze anos. Sei que foi um dia em que a levei ao limite, em que eu não parava de lhe responder mal (e descarregar nela qualquer frustração minha, talvez). Não lembro o motivo, mas recordo como se fosse hoje, a minha mãe a chamar-me até à casa de banho, fechar a porta e, para não me magoar, rasgar em tiras o pijama que eu tinha vestido. Não me tocou no corpo, mas nunca esqueci o descontrolo e a tristeza que eu lhe vi nos olhos. Depois disso, devo ter melhorado por uns tempos, mas sei que na minha adolescência estive muito longe de ser uma filha fácil.

A outra vez em que a fiz desesperar, passou-se em São Pedro de Moel e eu deveria ter uns cinco anos. Sei que fomos os quatro (eu, a minha irmã e os meus pais) e que alugámos na praia uma barraca às riscas azuis e brancas que dava para o mar. Sei também que, à primeira oportunidade,  me escapuli dos olhos deles  e fui brincar para um escorrega vermelho que eu tinha visto mal entráramos na praia.  
Recordo  o friozinho da barriga que sentia de  cada vez que subia as escadas do escorrega, que na altura me pareciam altíssimas, e me lançava por ali abaixo. Não sei quanto tempo estive por lá, sei que só me fartei quando avistei ao longe o Ti Batista, da aldeia vizinha, que passava por perto. Sei que me dirigi a ele e lhe disse  que os meus pais também estavam na praia e que eu o poderia levar até eles.
Assim fiz. Cheguei contente e vi os meus pais e a minha irmã perto do mar, fui ter com eles a dar a novidade de quem eu encontrara e não percebi logo  porque é que a minha mãe me levou até à barraca, fechou o pano para baixo, e me deu umas palmadas no rabo.

É que, durante todo o tempo que eu brincava no escorrega, eles procuravam-me, aflitos, no mar. Depois das palmadas, chorei baba e ranho, desconfio que não  só da dor, mas da humilhação de ter sido repreendida ao pé do Ti Batista dos Mouratos. Sei que estava  tão  triste-  naquela idade penso que não era  capaz de perceber a aflição que atingiu os meus pais quando deixaram de me ver- e nem fui ao banho.

Para salvar o dia, valeram-me as camarinhas que comi, quando, depois da praia, parámos no Pinhal de Leiria. Brancas, gordinhas (são as mais doce), ali à mão de semear, a tirar-me o salgado não de mar, mas das lágrimas que ainda sentia.

Nunca mais esqueci as camarinhas e agora, sempre que as vejo e as como, misturam-se os sabores todos-  doçura e amargo numa bolinha  pequenina envolta em saudade.








30 julho 2019

Às vezes (ainda) tenho a mania...

julho 30, 2019 5
Às vezes (ainda) tenho a mania...
Vestido La Coquette Boutique- aqui


Não vestia uma peça de cor vermelha há muito mais do que vinte anos, mas já desde o ano passado que dizia que gostava de um dia ter um vestido nessa cor.

Este ano, foi a prenda que me ofereci. Meio a medo, que as nossas inseguranças não desaparecem de um dia para o outro... Talvez tivesse receio de me fazer notar demasiado (o que quer que isso seja), mas nunca tinha tido a coragem de sequer experimentar. Até que a ganhei (obrigada, Filipa pelo empurrão final) e gostei.

Para quem não viu no Instagram, vesti-o num batizado, mas acrescentei-lhe um laço rosa forte (comprado a metro numa retrosaria).  Como raramente gosto  da conjugação vermelho e preto, que era a cor do cinto que tinha, não queria gastar dinheiro num novo e como também queria dar ao vestido um toque pessoal, foi a solução que encontrei e acho que não ficou nada mal.

Quanto aos acessórios, tudo muito discreto que isto é um passo de cada vez (a verdade é que é mesmo gosto pessoal- eu não sou grande apreciadora de visuais muito elaborados). 

16 julho 2019

A minha sogra e eu

julho 16, 2019 1
A minha sogra e eu
A minha sogra, que ainda hoje é uma mulher muito bonita, quando tinha a idade que eu tenho hoje


Facto 1-Dou-me muito bem com a minha sogra.

Facto 2- A boa relação com os sogros, ajuda ao sucesso de um casamento.

Às vezes,em conversa com as minhas amigas, costumo gracejar e digo que me dou muito bem com a minha sogra, porque tenho a vantagem de 180 quilómetros nos separarem.  Mas, rapidamente, costumo acrescentar que não é só isso e que sei que ambas sempre fizemos tudo para termos uma boa relação.
Se foi uma relação de amizade e afeição desde o início? Não. A verdade é que desconfio que deve ter custado um bocadinho à minha sogra, educada em colégio de freiras,  ter visto o seu menino embeiçado por uma menina de longe, cheia de vontades, de nariz empinado, que usava umas roupas demasiado modernas e que dizia o que pensava com a mania de que sabia muito. Sim, quando ela me conheceu, acredito que ela me deve ter estranhado. E muito.

Nem sempre foi fácil. A ela, que é muito mais conservadora do que eu, dever ter custado as minhas viagens (deixando o Luís a tomar conta dos filhos), o eu ser mandona (que sei que sou), as minhas opiniões. A mim, durante algum tempo,  também me custou parecer que ela não valorizava o meu trabalho e o tanto que eu me esforçava para a receber sempre tão bem, e não percebia certas coisas que ela defendia... Mas fomos crescendo as duas, aceitando o que não se pode mudar e limando as arestas que nos podiam magoar.
Nunca discutimos, sempre nos respeitamos muito, ela sempre se deu maravilhosamente com a minha mãe (mesmo se têm vivências tão diferentes) e hoje, vinte e nove anos depois de nos conhecermos, temos uma relação de confiança e carinho e sinto que ela gosta verdadeiramente de mim. E eu também gosto mesmo dela,  dou-lhe abraços apertados que ela retribui, telefono-lhe para dizer que estamos bem e perguntar por ela, relembro o Luís para lhe telefonar e ir a Viseu e  sei que ela tem orgulho na mãe e mulher que eu sou. 
 Somos família. Nunca me passaria pela cabeça não amar alguém que ama os meus amores mais do que a si mesmo.





04 julho 2019

O que diria eu à adolescente que eu fui?

julho 04, 2019 7
O que diria eu à adolescente que eu fui?

abril de 1987


junho de 2019

Há dias, quando recebi duas fotos minhas que uma aluna finalista do 12º ano me enviou, tiradas na linda festa que foi o Baile de Finalistas do secundário da minha escola, senti, confesso já aqui, uma pontinha de orgulho pelo percurso que tenho feito. E não tem nada a ver com estar bonita ou mais magra, tem a ver com segurança e confiança. 

Senti também que tinha de partilhar com quem me lê (principalmente com as mulheres mais novas) que eu nem sempre fui assim.

É que a  mulher que sou hoje nada tem a ver com a Sofia de dezassete anos, ou mesmo com a mulher que eu fui durante muito tempo. Sempre disfarcei muito bem, mas lidar com a minha imagem nunca foi tarefa fácil. Acho que tudo começou quando vi que as minhas colegas cresciam em altura e eu me ficava pelo metro e meio. Foi difícil para mim e penso que foi aí que eu passei a esconder as minhas formas, a vestir-me sempre como uma menininha, a vestir a pele da Sofia fofinha que nunca quis ser.

Depois, o caminho. Ser a professora baixinha que se confundia com os alunos, usar sapatos altos para "crescer"(continuo a amar sapatos altos), disfarçar o corpo e esconder as formas que me faziam mulher. Houve, contudo, um clique (há sempre, não é?).

Um dia, talvez há cerca de três anos, decidi que eu ia centrar-me em mim e assumir-me. Sou baixinha, e daí? Comecei a prestar mais atenção ao meu corpo, a cuidar-me, a não recear marcar a cintura, a não ter receio de mostrar os braços (estupidez pura sei-o hoje, mas durante anos não os mostrei),  a vestir saias curtas sem ser com collants opacos, a não fugir de cores ou padrões mais coloridos.

É claro que tenho dias de neura (ui!), mas a maioria das vezes não receio usar uns jeans justos com uma blusa por dentro (durante anos a minha imagem de marca foi calças com túnicas por fora ou vestidos de corte direito) ou um vestido mais feminino.

 Tem sido um caminho. É um caminho. Um caminho que me trouxe confiança e segurança e que me faz ser mais aberta ao mundo e mais luminosa, talvez.

Este post não é uma busca de elogios, juro. É apenas para dizer que é possível ser mais feliz com o corpo que temos, aceitá-lo e seguir. Penso é que passa, sobretudo, por aceitar quem somos, ouvir só quem interessa e nos quer bem. E se para umas pessoas a imagem que projetam quando se vestem não interessa, está tudo bem. Contudo, para mim, vaidosa desde que me lembro, a imagem sempre me preocupou  e me fez muitas vezes infeliz.

Se eu tivesse a possibilidade de dar conselhos à adolescente que eu fui, dir-lhe-ia que as suas características físicas não a definem, que ouvisse quem realmente a ama, que não tivesse medo de mudar se o quisesse. Que mudasse sempre por si e não pelos outros. E que a luz e a força que tinha dentro dela ( mesmo que por vezes tivesse de a procurar) iria ser sempre o mais importante.

Aceitação. Mudar se o quisermos. Crescer (sem ser em altura)!





26 junho 2019

Filhós, café e sabedoria aos 86 anos

junho 26, 2019 1
Filhós, café e sabedoria aos 86 anos
 Foto e uma receita  aqui

Há alturas de mais trabalho e eu, na última semana, andei a 100 à hora a procurar conciliar escola, família, amigos e voluntariado e a tentar que nada ficasse para trás.
Correu bem...roubei horas ao sono, mas vou recuperar.
Tudo isto para vos contar que durante quatro dias fui vendedora de filhós (ou filhoses) e café d'avó na Academia Cultural e Social de Maceira (Lar de idosos e centro de dia), a propósito das Festas da Vila de Maceira. Eu e a Anabela servíamos filhós e café d'Ávó e D. Guilhermina, a Celeste Rodrigues e Celeste Matias faziam os deliciosos e afamados bolinhos fritos.
Ora, logo na quinta-feira, quando fui levar a casa a D. Guilhermina, já passava da meia-noite, sentia-me cansada e verbalizei-o- Ainda mal tinha dito a frase que deve ter sido algo do género " Hoje, estou tão cansada, fiz isto e aquilo, fui e vim até Cantanhede, as pernas doem e etc e tal", a D. Guilherme olhou-me nos olhos e disse energicamente (um bocadinho em jeito de raspanete, confesso)" Ó filha, não te queixes e agradece  a Deus". Fiquei sem resposta.
Sabem, é que eu apenas servia as filhós, mas D. Guilhermina amassou muitos quilos de farinha, fritou centenas, com amor  e dedicação e sem um queixume. Um pormenor - ela tem 86 anos!
E é isto. Agradecer.

*
A propósito, obrigada a todos os que me foram dar um beijinho (um especial a uma rapariga que me reconheceu daqui do blogue e que me deu um abraço apertado) e aproveito para pedir publicamente desculpa ao senhor a quem entornei café na camisa (duas vezes!).

Nota- Tirei uma fotografia à D.Guilhermina, mas sei que não quer que publique. Desconfio que a imagem que vê nas fotos não corresponde à idade que tem na sua cabeça.

24 junho 2019

Chegaram os saldos, e então?

junho 24, 2019 1
Chegaram os saldos, e então?

Custou 29.95 euros e agora custa 19.95 euros- aqui

Por aqui, nem um arrepio, nem uma vontade de ir comprar uma blusinha...nada.
Hoje, com uma amiga, ainda entrei na Zara. E sim, vi um vestido que achei giro. Mas depois olhei melhor, vi que o decote era demasiado pronunciado e que tinha uma abertura que me ia deixar desconfortável. Pensei melhor e não o trouxe. A verdade é que tento não comprar por impulso. Quando alguma peça me chama a atenção, vejo o tecido, os acabamentos, experimento, pondero e, se tiver uma dúvida que seja, não compro.
Esta minha maneira vale para o que é caro e barato, porque não é por estar em saldos que vou comprar ou porque está em bom preço ou com uma redução de 60%.
O meu armário é pequeno e nele só entra o que realmente gosto e que penso ficar-me bem. Se quero com isto dizer que não gosto de saldos? Não. Eu gosto (muito) de encontrar achados. Em Barcelona encontrei dois vestidos a um ótimo preço e trouxe-os, mas porque tinha a certeza de que os vou vestir ( um deles já o andava a namorar no site da marca). Foi em janeiro que aconteceu e até hoje não houve saldos que me tentassem.
Se eu fui sempre assim? Não, mas hoje sou assim e tento pôr em prática o que penso- Mais vale comprar uma peça que nos fica bem e que, mesmo sem estar com promoção, sabemos que vamos usar mesmo, do que três ou quatro mais baratas, mas a que não damos uso. Claro que há alturas em que não corre bem- comprei o casaquinho da foto na Zara em finais de abril e agora custa menos 10 euros, mas não é um (ou dois ou três) percalço que me fará desviar do caminho.
Para já, penso assim, para o ano logo se vê!