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06 novembro 2019

E a vida corre sempre bem, Sofia?

novembro 06, 2019 2
E a vida corre sempre bem, Sofia?

Não. Tento é que as coisas más não transpareçam muito aqui para o blogue.Sou otimista por natureza e tenho a mania de acreditar que quando mais falamos em negatividade, mais parece que a atraímos.
Na verdade, a minha vida não é pintada a rosa. É uma vida parecida com a maioria dos adultos da minha idade. Uma vida dividida entre tantos papéis que tento cumprir na perfeição, mas que sei que nunca conseguirei cumprir em plenitude. Quem consegue, afinal?
O tempo a escorregar-nos dos dedos, percalços a roubarem-nos os sonhos, a vontade de partir que surge de quando em quando, o cansaço que nos quer vergar...
Mas não pensem que me deixo ir abaixo. Nada disso, tenho dado luta. Tento cuidar de mim, refugio-me nas amizades e gargalhadas, nos mimos que alguns dos meus alunos me dão e que me fazem acreditar no privilégio que é poder vê-los crescer, nos abraços dos meus filhos, no Luís que me mostra que não desiste de nós e em tantas pequenas coisas...
Se resulta? Sempre, sempre, também não. Não há receitas infalíveis. Mas ajuda.

28 outubro 2019

A festa do Sagrado, os cinquenta e uma miúda a crescer

outubro 28, 2019 0
A festa do Sagrado, os cinquenta e uma miúda a crescer

Na sexta-feira, fui à reunião de todos os que nasceram em 1970 em Maceira- manda a tradição que quem faz cinquenta anos organizará as festas do Sagrado Coração de Jesus na freguesia onde moro.
Já não era a primeira reunião, mas foi a primeira em que tive disponibilidade para estar presente.
Sentei-me e observei. Caras conhecidas, outras que não sabia terem a minha idade, pessoas que andaram comigo na primária e na catequese, pais de antigos alunos, alguns amigos. Custou-me um bocadinho reconhecer-me, mas sei que mesmo me esquecendo muitas vezes, eu sou igual a eles nas rugas, nos cabelos brancos, no cansaço que espreita quando o dia já foi longo (julgamos que parecemos sempre mais novos do que somos realmente, não é?).
Foram três horas de reunião em que se discutiram cores, símbolos, bandas musicais, eventos e tanto trabalho que nos espera. Eu falei pouco e, talvez porque as pessoas estivessem à espera que eu fosse mais interventiva, houve até quem pedisse um colchão para eu dormir- se eu estava tão calada, só poderia estar cheia de sono.

Não era sono. Estive mais silenciosa porque reconheço que há quem perceba do assunto muito mais do que eu. Estive calada, porque queria ouvir. Estive calada porque os últimos anos me fizeram crescer de uma maneira que me faz não estar sempre tão preocupada em fazer, em querer ajudar, em querer resolver tudo...
Estou mais  tranquila, penso mais antes de falar, tenho menos vontade de fazer festa, mas  sei melhor o caminho que quero seguir (mesmo sabendo que amanhã pode ser outro).

Serão os cinquenta? Não sei, mas enxergo agora que sou mais feliz hoje do que quando gargalhava mais alto, do que quando me empenhava para divertir todos os que estivessem à minha volta. Talvez, quando o fizesse, fosse por não gostar tanto de mim como gosto agora. 

07 outubro 2019

O nosso corpo de cor e salteado...

outubro 07, 2019 1
O nosso corpo de cor e salteado...

Tenho conversado com amigas próximas sobre esta coisa de estarmos sempre a ver defeitos em nós próprias. Cansamo-nos a apontar gordurinhas que sobram, manchas, pelos...A maioria de nós sabe o  corpo de cor e salteado quando é necessário apontar imperfeições!  
Ora bem, se há algo que a vida me trouxe foi, de alguma forma, uma aceitação da mulher que sou no que diz respeito a questões físicas. Não quer isso dizer que tenha desistido de mim, pelo contrário. Gosto de cuidar do meu corpo, da minha pele hidratada e perfumada, de me alimentar saudavelmente (com alguns deslizes como convém), mas sei que o passar do tempo deixou marcas, que a minha barriguinha nunca vai ser lisa, que o meu cabelo nunca será como o dos anúncios a champô e...surpresa-  não faz mal! 

Já escrevi muito sobre isto da aceitação, mas voltei hoje  ao tema porque vi esta  foto que o Miguel me tirou na sexta-feira e não senti vontade de mudar nada. Pensarão, talvez, que é imodéstia e atrevimento, mas não. 

O que sinto hoje, aos quarenta e nove anos, é uma serenidade que me faz assumir tal como sou e, se hoje escrevo sobre isso, é porque durante muitos anos fui a minha melhor crítica e  quero aqui afirmar que, sinceramente, tal não me valeu de nada porque os anos que passei a apontar-me defeitos só me fizeram sentir insegura e triste. 

Acho que o clique aconteceu mesmo quando perdi a minha amiga Ana, uma mulher fantástica, na altura com quarenta anos, que partiu tragicamente (escrevi sobre ela aqui). A partir daí, foi mais fácil não me desaprovar (punir?) por algo que não faz sentido. Ao invés disso, sei agora o meu corpo de cor, mas procuro agradecer.
A Ana partiu jovem. Eu, se tiver sorte, quero é viver até ficar (im)perfeitamente cheia de  rugas perfeitas e cabelos brancos. 




23 setembro 2019

O nosso tempo

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O nosso tempo


Quando ouço alguém mais velho do que eu afirmar “no meu tempo é que era!”, percorre-me sempre um arrepio. Normalmente, sorrio e não entro em discussões. Já sei que me vão dizer que “no meu tempo é que era” porque se sabia todo os rios e os afluentes, se cantava de cor e salteado as estações e apeadeiros e a tabuada estava na ponta da língua.   Se eu respondesse teria de dizer que aos nossos alunos, atualmente, é exigido tanto saber que lhes falta tempo para subir às árvores, para se aborrecerem por não tem nada para fazer, para rasgarem as calças nos joelhos ou para irem até à cozinha e rasparem com o dedo o que sobrou de um bolo.
Atualmente, desde o primeiro dia que atravessam os portões da escola, às nossas crianças e jovens é exigido muito- programas extensos, conteúdos muito exigentes, provas de aferição que começam aos sete anos (e que por mais que lhes digam que não contam, lhes põem o coração aos pulos), testes a tantas disciplinas, o querer tirar boa nota no teste para não desiludir o pai ou o professor, a pressão dos exames…
Viver em escola hoje é difícil tanto para alunos como para os profissionais de educação. O tempo que é sempre pouco para programas curriculares exigentes, a voracidade que atropela, os paradoxos, as tecnologias sempre novas, crianças a precisarem de mimo e limites, os trabalhos de casa que são tantos, o professor  e o assistente operacional que nem sempre são  respeitados como deveriam. Por isto e por tanto, não gosto de ouvir “no meu tempo é que era”.  A escola de hoje é tudo menos fácil, há um  caminho que se percorre que nem sempre  se sabe ser o (mais) correto, mudanças de rumo que receamos, e há, repito-me, a falta desse bem precioso que é o tempo.  E contudo, eu tenho poucas dúvidas- na maioria das nossas escolas, o trabalho em prol dos alunos é sempre o que mais importa, independentemente do tempo que se esteja a viver.


15 setembro 2019

setembro 15, 2019 0
Se há uns anos me dissessem que um dia eu teria vontade de fazer as malas e partir, eu iria sorrir, esquecer o comentário e prosseguir com a minha vidinha.
Quão imprevisível é, contudo, a vida…
Todos os meses vejo pessoas a partir. Decididas. Corajosas. Fartas de um país que pouco apoia quem trabalha e quem quer lutar por uma vida melhor. Cansadas de um país que não protege a natalidade nem a educação dos filhos. Receosas deste país em que temos cada vez mais medo de adoecer e envelhecer.
E, a grande maioria que eu conheço, é gente muito válida, esforçada e trabalhadora, mas que não aguenta mais as náuseas de viver num país que se esqueceu das suas pessoas e em que quase parece proibido ter sonhos e ambições.
O que nos falta entregar a este país em nome da austeridade? Já lhe entregámos os nossos subsídios e a nossa esperança. Já lhe entregámos tantas famílias que Portugal separou e incitou a partir. Já lhe entregámos tanto, mas nada parece ser suficiente.
Aqui em casa, já há malas que estão a ser preparadas, escondem-se lágrimas e antecipam-se saudades. Quanto a mim, tenho cada vez mais vontade de arrumar as minhas trouxas e ir embora também. Desiludida, embora não vergada, mas sem vontade de contrariar esta determinação enorme que me consome e me dá vontade de, também eu, partir.
(texto publicado a 23 de maio de 2013)

30 agosto 2019

Ir e voltar

agosto 30, 2019 1
Ir e voltar


Tenho a sorte de poder sair de Portugal com alguma frequência e, sempre que viajo, costumo fazer o exercício de pensar como seria viver na cidade X. Enumero  as vantagens, peso as desvantagens e sinto vontade de, mais dia menos dia, quando os filhos mais crescidos estiverem,  sair por mais do que duas ou três semanas.
Este mês estive em  Bratislava pela quarta vez. Entre um Dobré ráno [i]e um Ďakuje[ii]m tentei fazer a minha vidinha como se eu não estivesse apenas de visita. Fui aos mesmos  supermercados que os eslovacos vão, caminhei quilómetros nas pistas que existem para o efeito, banhei-me nos lagos em vez de ir à praia, remexi prateleiras nas lojas de roupa em segunda mão, tentei falar mais baixinho e deliciei-me com o silêncio dos locais públicos (a cada dia me sabe melhor entrar num sítio cheio de gente e não ouvir muito barulho).
Senti falta da minha cadela, dos meus familiares mais próximos e de alguns amigos. Salivei por peixe que é muito caro em terras eslovacas, queixei-me um bocadinho das altas temperaturas que se fizeram sentir e que me fizeram transpirar tanto que pensei que fosse a menopausa a chegar!

Mas regressei à minha casa branca, onde moram  os azulejos e a mobília que escolhi, onde as divisões estão cheias de memórias…  Quando eu absorta  pensava que talvez não fosse infeliz se não tivesse regressado (desde que tivesse o Luís e os meus filhos por perto), ouvi tocar a campainha.

Levantei-me um bocadinho a custo e fui abrir a porta. Do outro lado, com um saquinho de feijão verde tenrinho acabado de apanhar na mão e beijinhos repenicados para me oferecer, estava a Ti Joaquina- a melhor das vizinhas- a saudar-me, a estender-me os braços, a dizer-me que todos os dias olhava para a minha casa a ver se eu já voltara e, sem o saber, a fazer-me compreender que o meu lugar (ainda) é nesta rua de dez casas onde moro.


[i]  Bom dia
[ii] Obrigado

Texto publicado em agosto de 2019 no jornal "Maceira à letra"

21 agosto 2019

Camarinhas e umas palmadas (bem) dadas!

agosto 21, 2019 0
Camarinhas e umas palmadas (bem) dadas!



No domingo, fomos até São Pedro Moel, praia da minha infância  e da do Luís ( que vinha de Viseu passar férias nessa vila). Quando regressávamos a casa, pela bonita estrada que vai dar à Vieira de Leiria, eu gritei: Pára o carro! Camarinhas!
Ao Luís, beirão, não lhe dizem muito as camarinhas, mas a mim...dizem muito, principalmente por causa da história que conto a seguir.

Só me lembro da minha mãe se ter zangado a sério comigo duas vezes. A última, deveria eu ter uns doze, treze anos. Sei que foi um dia em que a levei ao limite, em que eu não parava de lhe responder mal (e descarregar nela qualquer frustração minha, talvez). Não lembro o motivo, mas recordo como se fosse hoje, a minha mãe a chamar-me até à casa de banho, fechar a porta e, para não me magoar, rasgar em tiras o pijama que eu tinha vestido. Não me tocou no corpo, mas nunca esqueci o descontrolo e a tristeza que eu lhe vi nos olhos. Depois disso, devo ter melhorado por uns tempos, mas sei que na minha adolescência estive muito longe de ser uma filha fácil.

A outra vez em que a fiz desesperar, passou-se em São Pedro de Moel e eu deveria ter uns cinco anos. Sei que fomos os quatro (eu, a minha irmã e os meus pais) e que alugámos na praia uma barraca às riscas azuis e brancas que dava para o mar. Sei também que, à primeira oportunidade,  me escapuli dos olhos deles  e fui brincar para um escorrega vermelho que eu tinha visto mal entráramos na praia.  
Recordo  o friozinho da barriga que sentia de  cada vez que subia as escadas do escorrega, que na altura me pareciam altíssimas, e me lançava por ali abaixo. Não sei quanto tempo estive por lá, sei que só me fartei quando avistei ao longe o Ti Batista, da aldeia vizinha, que passava por perto. Sei que me dirigi a ele e lhe disse  que os meus pais também estavam na praia e que eu o poderia levar até eles.
Assim fiz. Cheguei contente e vi os meus pais e a minha irmã perto do mar, fui ter com eles a dar a novidade de quem eu encontrara e não percebi logo  porque é que a minha mãe me levou até à barraca, fechou o pano para baixo, e me deu umas palmadas no rabo.

É que, durante todo o tempo que eu brincava no escorrega, eles procuravam-me, aflitos, no mar. Depois das palmadas, chorei baba e ranho, desconfio que não  só da dor, mas da humilhação de ter sido repreendida ao pé do Ti Batista dos Mouratos. Sei que estava  tão  triste-  naquela idade penso que não era  capaz de perceber a aflição que atingiu os meus pais quando deixaram de me ver- e nem fui ao banho.

Para salvar o dia, valeram-me as camarinhas que comi, quando, depois da praia, parámos no Pinhal de Leiria. Brancas, gordinhas (são as mais doce), ali à mão de semear, a tirar-me o salgado não de mar, mas das lágrimas que ainda sentia.

Nunca mais esqueci as camarinhas e agora, sempre que as vejo e as como, misturam-se os sabores todos-  doçura e amargo numa bolinha  pequenina envolta em saudade.








30 julho 2019

Às vezes (ainda) tenho a mania...

julho 30, 2019 5
Às vezes (ainda) tenho a mania...
Vestido La Coquette Boutique- aqui


Não vestia uma peça de cor vermelha há muito mais do que vinte anos, mas já desde o ano passado que dizia que gostava de um dia ter um vestido nessa cor.

Este ano, foi a prenda que me ofereci. Meio a medo, que as nossas inseguranças não desaparecem de um dia para o outro... Talvez tivesse receio de me fazer notar demasiado (o que quer que isso seja), mas nunca tinha tido a coragem de sequer experimentar. Até que a ganhei (obrigada, Filipa pelo empurrão final) e gostei.

Para quem não viu no Instagram, vesti-o num batizado, mas acrescentei-lhe um laço rosa forte (comprado a metro numa retrosaria).  Como raramente gosto  da conjugação vermelho e preto, que era a cor do cinto que tinha, não queria gastar dinheiro num novo e como também queria dar ao vestido um toque pessoal, foi a solução que encontrei e acho que não ficou nada mal.

Quanto aos acessórios, tudo muito discreto que isto é um passo de cada vez (a verdade é que é mesmo gosto pessoal- eu não sou grande apreciadora de visuais muito elaborados).