Quando as palavras cortam... - gira aos quarenta

15 março 2018

Quando as palavras cortam...


Este é um texto que escrevi este mês para sair no jornal local. Escrito de forma simples, mas verdadeira. 
Se conhecem alguém que tem veneno na língua, sintam-se à vontade para o partilhar.


As palavras que nunca te direi

Roubei o título a um livro de Nicholas Sparks, mas este texto não tem nada a ver com ele. Tem a ver com a vida real, com o que observo e ouço,  com as palavras que se dizem, talvez sem serem pensadas, algumas sentidas ou não. Palavras que tenho a certeza, mesmo arriscando no advérbio nunca, nunca direi.

Estás tão gorda! Estás tão velha. Como é que te deixaste engordar tanto? Estás demasiado magra! És mesmo baixa! Que escadote! Tu não necessitas de comer porque não precisas! Tens a pele tão estragada! O que é que fizeste ao cabelo? És mesmo um palito! Estás muito desleixada... São apenas exemplos de frases terríveis, proferidas por vezes entre risos e gargalhadas, que a mim não me dão a mínima vontade de rir.

Lembro-me de acabar de perder o meu segundo bebé em agosto, de voltar à escola em setembro e de um colega meu me chamar à parte por achar que eu tinha engordado demasiado nas férias. Referiu que eu era muito nova, que me estava a desleixar e que o meu marido poderia não gostar...Disse-me que eu estava gorda. O que é que ele tinha a ver com isso? Nada. Se pensava que estava a ser meu amigo não o conseguiu. Conseguiu apenas que eu fosse a chorar para casa, que me sentisse ainda mais infeliz e com vontade de me enfiar no buraco mais próximo. Nunca esqueci o que me disse e penso que ele nunca imaginou como me magoou.

Assisto também muitas vezes dirigirem-se ao meus familiares e amigos e proferirem frases do género. E não, não estou a falar de frases ditas por crianças, mas sim de conversa de adultos.
Diz Alexandre O’Neill que há palavras que nos beijam, mas diz também Eugénio de Andrade que algumas são como um punhal. E são mesmo. Ferem-nos a autoestima, fazem-nos sentir mínimos e não consigo perceber outra intenção de serem ditas que não seja magoar o outro.
Talvez quem as diga esteja apenas a tentar ser engraçado, ou a meter conversa, ou julga que está a ajudar a pessoas chamando a atenção para o que pensa não estar bem. Eu não tenho dúvida em afirmar: são frases que não têm graça e que não ajudam ninguém.

Se a pessoa tem excesso de peso, sabe. Se é alta ou magra, também sabe. Se tem rugas, é sinal que está a envelhecer. É que as pessoas têm normalmente espelhos em casa, conhecem-se e não precisam de palavras cheias de veneno e que as diminuam.

Sou uma mulher com defeitos, erro muitas vezes e já magoei quase de certeza pessoas com palavras que disse sem pensar. Contudo, frases como as que acima escrevi, penso que não disse e, se as disse,  a pessoa que sou hoje afirma sem receio: há palavras que nunca te direi.

9 comentários:

  1. As pessoas gostam de criticar os outros, infelizmente. O mundo era um lugar muito melhor se, em vez de serem tão rápidos a dizer coisas pouco simpáticas, fizessem um simples elogio.

    Beijinhos

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  2. Infelizmente, sempre houve, continua a haver e haverá pessoas cuja realização pessoal passa pela humilhação e o rebaixamento do outro... É a triste condição humana. Pior ainda é quem se esconde atrás dum telemóvel para vomitar o veneno que tem na alma sobre alguém que apenas quer viver a sua vidinha e ser feliz.
    Gostei muito do teu texto, Sofia, e também já ouvi muita palavras que nunca, mas nunca direi a ninguém.

    Beijinho
    Carla

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  3. Isto é tão, mas tão verdade... Acho que o bom senso deixou de existir, e as pessoas já nem se importam em pensar antes de falar... se o fizessem o resultado seria outro...

    Beijo
    https://titicadeia.blogspot.pt/

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  4. As pessoas adoram criticar, a verdade é essa...
    Beijinhos,
    http://chicana.blogs.sapo.pt/

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  5. Este texto acomodou-se cá dentro, bem junto de memórias dolorosas ... beijinhos e obrigada pela tua sensibilidade. De ti sei que serão mesmo palavras que nunca dirás a ninguém ...

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  6. Se é para abrir a boca elogiem. Com verdade, sem ser por dizer. Não tenham medo de dizer: estás tão gira, estás tão bem, o teu cabelo está tão giro! é isso! e um gosto de ti também nunca fez mal a ninguém

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  7. O problema é as pessoas precisarem de mandar essas farpas para se sentirem bem consigo, superiores e válidas... É um vazio que preenchem e assim se vão enganando. Eu sou adepta fervorosa do elogio. Ofereço-o todos os dias sem limites, encontro sempre algo positivo para salientar e não guardo para mim. Gostei do texto, simples e transparente :) beijinhos

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  8. Quando se apontam as falhas dos outros ou os seus supostos defeitos é geralmente para que os outros não olhem/não vejam os nossos defeitos, é um mecanismo de defesa que supostamente faz sentir melhor quem faz esse tipo de comentarios. Recordo que 8 ou 9 meses depois da minha cesariana ouvi muitos comentários desse tipo: "ainda estás tão forte"; "ainda tens a barriga tão grande" e é claro que tinha plena consciência disso... Enfim, respirar fundo e continuar a ser e a fazer o nosso melhor. É muito fácil criticar os outros, difícil é ser empático e tentar compreender o que os outros sentem e pensam.

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  9. já dizia a minha avó: "se não tens nada de simpático para dizer a alguém... cala-te!"

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