Quando a estrangeira sou eu #1 - gira aos quarenta

03 agosto 2018

Quando a estrangeira sou eu #1



As imagens que publico no Instagram refletem uma parte ínfima do meu dia e, acreditem, uma parte que nem é a mais importante.Talvez seja assim com todas as pessoas, porque o que se passa de mais escuro, o que incomoda, o que nos fica a remoer no estômago não é, quase nunca,  fotografável. E,  por isso, é que nada substituirá este meu espaço, o meu blogue-balão de oxigénio, que me permite escrever o que se passa cá dentro. Aí vamos nós, então!


A Eslováquia é o quarto país para onde o Luís vai em trabalho. Estivemos dois meses com ele em Angola (a trinta quilómetros do Sumbe), em Widnes (entre Manchester e Liverpool), em New Ross (Irlanda) e estamos agora a quinze minutos do centro de Bratislava.

Estamos cá há uma semana e, como o Luís trabalha, depois do almoço eu e os meus dois rapazes temos apanhado o autocarro para ir explorar a cidade. Ora aí está- apanhar o autocarro, o busílis da questão que nos tem provocado calafrios e que ontem deu direito a lágrimas nos olhos e a incómodo que (ainda) não consegui que passasse.

Segunda-feira entrámos no autocarro, dirigi-me ao motorista para comprar os bilhetes; este simplesmente ignorou-nos, repeti que queria bilhetes, ele nem olhou para nós e arrancou. Sentámo-nos, incrédulos, e fizemos a viagem sem bilhete e sem pagar.
Terça-feira entrámos no autocarro, dirigi-me ao motorista e este vendeu-nos os bilhetes sem problema.
Quarta-feira entrámos no autocarro, um motorista vendeu-nos os bilhetes, mas parecia zangado connosco, falou connosco em eslovaco bastante alto, nós falámos em inglês e ele continuou a falar (ralhar?) o que nos levou a achar que deveríamos passar a comprar bilhetes com antecedência.

Ontem, quinta-feira à tarde, entrámos no autocarro, com os nossos bilhetes pré-comprados, o motorista ralhou connosco (se não ralhou, parecia), fez-nos levantar do lugar, deu-nos, com um ar de frete, um recibo e ficámos a pensar que não, se calhar não deveríamos ter usado o pré-comprado (O Gonçalo pensa que os pré-comprados não dão para esta zona da cidade).

Hoje, ainda não sei como faremos.

Paralelamente, há o que me aconteceu ontem de manhã.
Oito horas da manhã, entrei no autocarro, comprei o bilhete ao motorista e correu tudo bem. Segui para o elétrico (muito cómodos e com ar condicionado) e fui para o centro da cidade. Correu tudo tão bem e eu estava muito orgulhosa- vês, Gonçalo? A tua mãe sabe desenvencilhar-se sozinha!
Cerca das onze e meia, resolvi voltar para casa. Era a primeira vez que o fazia, porque o Luís tem-nos ido buscar de carro ao final do dia. O Gonçalo explicara-me de véspera como o fazer-tinha de apanhar o 525. 
Cheguei à paragem e na placa não constava o número pretendido. Pedi ajuda a uma mulher jovem e ela disse-me, depois de consultar os horários, que poderia apanhar o 610. Quando chegou o 610, entrei e perguntei ao motorista se ia para o local onde moramos. Só ouvi gritar:NIE! Repeti duas vezes o nome da localidade (sem uma palavra de inglês para não o incomodar) e ele voltou a gritar, quase explodindo,vermelho, colérico, enfurecido :NIE! NIE! NIE! Cada NIE era um vai-te embora, sai daqui, não me chateies.As lágrimas apareceram-me nos olhos, desci rapidamente, ele arrancou furioso. Desisti e pedi ajuda ao Luís para que, na hora de almoço, me fosse buscar( acima a foto que eu lhe mandei do local onde eu estava).

Temos falado muito com os miúdos sobre xenofobia e isto de ser discriminado. A verdade é que, por aqui, com exeção dos locais onde vamos no centro da cidade e onde  nos tratam bem (talvez por estarem mais habituados a turistas), não nos sentimos muito bem recebidos*. O Gonçalo pensa/pensava que em Portugal um motorista nunca falaria assim com alguém. Eu lembrei-o da jovem colombiana que foi esmurrada no Porto com frases  "Preta de merda, queres apanhar um autocarro?  Vai para o teu país!".


E sim, infelizmente também acontece em Portugal.  Eu é que nunca tinha passado por isto. Foram dois ou três minutos em muitas horas de vida. Não consigo imaginar a angústia de tantas pessoas  que são vítimas de discriminação/racismo/xenofobia todos os dias da sua vida.

Que sirva de exemplo aos meus filhos e que deixe a pensar quem me lê.

 * Eu sei que só passou uma semana, mas para já é isto.



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