A filha da mãe que eu fui - gira aos quarenta

05 junho 2018

A filha da mãe que eu fui


Escrevo todos os meses para um jornal da minha terra. No mês de maio, saiu este texto. Deixo-o aqui, para as minhas leitoras mais novas que, por vezes, pensam que sabem muito. E para as mães que (como eu) lidam com adolescentes. E para todas as filhas...

Paris, 1985- com a mania que tinha estilo e que sabia tudo- mas tão insegura, afinal...


A filha da mãe que eu fui

Lamento muitas vezes a filha que eu fui. Difícil, com a mania que sabia tudo. Nunca me esqueci de como eu, adolescente rebelde, testava a minha mãe até aos limites, de como eu me achava superior porque a minha mãe não lia livros, de como eu não percebia como poderia a minha mãe ter tão pouca roupa no armário, de eu pensar que sabia muito mais do que ela...

Envergonho-me, confesso, da filha ingrata que eu fui por vezes. Contudo, e mais ou menos na altura em que fui mãe (penso que isto acontece a muitas mulheres), o clique fez-se.
Hoje sei que a minha mãe, mesmo tendo apenas a 3ª classe incompleta, sabia muito mais da vida do que eu. Corrijo: eu não sabia quase nada.

Olhando para trás, lembro a minha mãe-formiguinha-trabalhadora para que nada me faltasse, recordo a generosidade com os outros, os seus conselhos e ensinamentos e dou por mim a tentar, muitas vezes, ser como ela. Hoje, a minha mãe já não tem a energia de outrora, mas continua a ser um exemplo de vida para mim e para a minha irmã, ainda faz as melhores omeletes da zona, serve-as no café da família e continua a trabalhar sem queixumes.

Já há anos que a nossa relação é outra. Agora, tento que não passe um dia sequer sem que eu a veja, conto-lhe da minha vida, é a pessoa que eu mais ouço e até sorrio quando ela diz para os meus filhos “a tua mãe não sabe!”, enquanto lhes serve um prato de salsichas bem fritas, com ovo estrelado e batatas fritas.

Por vezes, gostava de a abraçar mais, de lhe dar mais mimos, mas demonstrações de afecto como beijinhos e abraços não são fáceis para a minha mãe, talvez porque nunca os teve em demasia... Contudo, eu sei que a sopa sem batata que ela me faz, os legumes que me prepara tantas e tantas vezes, estão impregnados de amor e carinho e são os beijos que ela tem dificuldade em dar.

Fui a tempo e a filha da mãe que eu fui já não existe. Hoje, rezo todos os dias para que Deus ma conserve assim: trabalhadora, sem medos de dizer o que pensa, amiga do seu amigo, generosa, dona do seu nariz, sempre presente, uma verdadeira mãe.

Sei também que a minha mãe já perdoou a filha que eu fui (as mães perdoam sempre os filhos, não é?). Quanto a mim, faço tudo para que aquela filha de nariz empinado não volte mais.


9 comentários:

  1. Que palavras tão bonitas!
    De certeza que a sua mãe tem muito orgulho na filha e mãe que hoje é! ;)
    Beijinho
    Cris

    www.lima-limao.pt

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  2. Não somos todas assim, quando somos mais novas? Sem ter a noção que tudo que estamos a passar, as nossas mães já passaram.. que elas nos querem bem e que tem sempre palavras sábias? :)

    TheNotSoGirlyGirl // Instagram // Facebook

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  3. Humildade em cada palavra Sofia! Quantas vezes se pensa que se sabe tudo quando na verdade nada se sabe... Ja dizia um sábio pensador: "So sei que nada sei". ;)

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  4. Muito bonito o texto. :)

    Beijinhos

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  5. Que sorte a tua Mãe ter uma fikha como tu! Bj

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  6. Palavras sinceras e pro isso tão bonita.

    Beijinho Sofia.
    Paula

    Vida de Mulher aos 40

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  7. Um texto de gratidão muito bonito.Bj

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